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terça-feira, 26 de maio de 2015

OS JOVENS NEGROS DE FERGUSON E BALTIMORE NÃO VÃO DEIXAR A SUA HISTÓRIA SER IGNORADA

Militante do movimento negro dos Estados Unidos, Biko Barker discute o racismo na sociedade norte-americana, evidenciado pela violência policial em Ferguson e Baltimore.
Por José Coutinho e Simone Freire

Freddie Gray, jovem negro de 25 anos residente em Baltimore, no distrito de Maryland (EUA), foi preso no dia 12 de abril após tentativa de fuga. Apesar de portar apenas um canivete, Gray foi colocado num camburão e misteriosamente sofreu uma grave lesão na espinha, que resultou em seu óbito uma semana depois.
Michal Brown, jovem negro de 18 anos, residente em Ferguson, estava a caminho da casa de sua avó no dia 09 de agosto de 2014. Foi abordado por policiais e, de mãos levantadas, foi baleado.
Os assassinatos de Gray e Brown deixaram claro à sociedade estadunidense que, apesar da abolição da escravidão em 1863 e o fim da segregação racial na década de 1960, o racismo continua enraizado no país. Essas mortes, no entanto, foram o estopim para grandes manifestações da comunidade negra contra o racismo, o preconceito, e exigindo que a justiça fosse feita.
“O racismo institucional não é efetivo porque uma pessoa aqui ou ali é racista; ele funciona porque as pessoas, às vezes sem saber, propagam práticas e políticas preconceituosas que estão enraizadas na sociedade, e que acabam enfraquecendo, desvalorizando e as vezes matam pessoas negras”, analisa Biko Baker, doutor em Tecnologia e diretor executivo da organização League  of Young Voters Education Fund (Fundo de Educação da Liga de Jovens Eleitores - tradução livre). 
Em entrevista concedida ao Brasil de Fato, Biko discute o racismo na sociedade estadunidense, evidenciado pela violência policial em Ferguson e Baltimore, e como o racismo nos EUA se assemelha ao brasileiro.
Biko Baker, militante do movimeno negro nos EUA
Abaixo, confira a entrevista:
Brasil de Fato - O racismo e preconceito nos EUA são ensinados em casa? Onde mais podemos identificar que o racismo é propagado na sociedade norte-americana? 
Biko Baker - Eu acredito que o racismo é ensinado em casa, num nível individual. Mas nunca podemos esquecer que o racismo é perigoso porque tem um impacto em instituições, como escolas, cortes de justiça, até mesmo em bancos, negros têm mais dificuldades para obter empréstimos e começar um negócio.
Também há discriminação no espaço de trabalho, que previne pessoas negras qualificadas de conseguir empregos.
O racismo institucional não é efetivo porque uma pessoa aqui ou ali é racista; ele funciona porque as pessoas, às vezes sem saber, propagam práticas e políticas preconceituosas que estão enraizadas na sociedade, e que acabam enfraquecendo, desvalorizando e às vezes matam pessoas negras.
Brasil de Fato - Qual a relação dos negros com as instituições de Estado e governos?
Biko Baker - Os negros têm muito poder político nos EUA. Barack Obama não teria sido eleito presidente se não fosse a força do nosso voto. Pessoas negras têm poder em um nível local, especialmente em cidades como Atlanta e Filadélfia, com prefeitos negros. O problema é que o sistema em que vivemos tem um histórico de discriminação e más políticas internas, que propagam a discriminação.
Os EUA acabaram com o racismo explícito com o fim das leis Jim Crow (que legalizavam a segregação racial no país) nas décadas de 1950 e 1960, mas estabeleceram o racismo institucional quando estabeleceu, nas décadas de 1970 e 1980, a guerra contra as drogas.
Então, mesmo que pessoas negras tenham força política, cidades que são governadas por elas são igualmente opressoras para a população negra. E isso se dá porque esses governos locais continuam avançando as políticas fundadas na guerra contra as drogas.
Brasil de Fato - Que políticas de guerra contra as drogas institucionalizaram o racismo?
Biko Baker - Mesmo pessoas negras e brancas consumindo a mesma quantidade de drogas no mesmo nível, a guerra contra as drogas tem os maiores e mais danosos impactos nas comunidades de cor.
Há um superpoliciamento nas comunidades negras, e a justiça historicamente tratou as drogas usadas em comunidades pobres, como o crack, que é mais acessível que a cocaína, com penalidades mais duras.
A disparidade das sentenças em certo ponto foi de 100 usuários de crack presos para cada usuário de cocaína. Mesmo com o Ato de Sentença Justas de 2010 fazendo a proporção mais igualitária, a diferença ainda é de 18 para 1.

No fim das contas, se você é negro e pobre, você tem mais chances de ser pego, preso e julgado por usar drogas, porque a polícia tem mais chances de estar na sua comunidade procurando de uma forma doentia por traficantes e usuários.
Brasil de Fato - Como você avalia o que aconteceu em Ferguson, em termos da brutalidade policial e também como a população lidou com isso nos protestos?
Biko Baker - Os jovens negros não têm medo. Eles também são muito conscientes politicamente. Os jovens militantes de Ferguson disseram que já bastava e se mantiveram contra a polícia, não parando de se manifestar desde 9 de agosto de 2014.


Em minha opinião, St. Louis, Fergunson, ainda lutam contra os fantasmas da escravidão. Missouri foi uma das últimas cidades a abolir a escravidão, e eu acredito que é por causa disso que há uma propensão para ignorar o racismo.
Mas os jovens negros não vão deixar a sua história ser ignorada. Então eles tomaram as ruas, todos os dias por nove meses. A mídia tradicional tenta focar nos incêndios e saques, mas, na maior parte, o que eu vi foram jovens respondendo à dor e violência com arte, amor, fazendo com que suas vozes fossem ouvidas.
Denunciar sua situação de opressão é o primeiro passo para elevar a consciência, e acredito que Ferguson mostrou que estamos começando a ver a força política dos jovens.
Brasil de Fato - Qual foi o papel do hip hop e das redes sociais para mostrar o que ocorria em Ferguson? Como a mídia tradicional tratou os protestos?
Biko Baker - O mundo não estaria falando de Ferguson ou Baltimore se não fosse pela força da arte e as redes sociais. Conectados por plataformas como WhatsApp, Facebook e Twitter, os jovens dos EUA estão compartilhando e aprendendo das experiências de cada um.
Não é sem motivo que as vozes mais ouvidas nas lutas são de rappers e artistas; eles são as vozes mais críveis e experientes dentro das comunidades negras.
A grande mídia adoraria virar a história e tratá-las pelo seu viés conservador, mas ela não pôde ignorar a indignação dos negros nos EUA. A voz deles era muito forte, e eles estavam muito conectados.
Brasil de Fato - Depois de Ferguson, temos Baltimore. O que conecta a violência nas duas cidades? Você acha que os protestos vão mudar a forma como os negros são tratados nos EUA?
Biko Baker - De tudo que sei do que ocorreu em Baltimore, a situação é similar a Ferguson. Baltimore é uma cidade do sul do país que ainda tem de lidar com os problemas raciais.
Pobreza e racismo não podem ser colocados debaixo do tapete e esquecidos. Uma hora, como ocorreu, isso sempre vai aflorar.
Brasil de Fato - No Brasil, com a eleição de Dilma Rousseff, pela primeira vez, muitas expectativas foram criadas em relação às lutas de igualdade de gênero. Expectativas que não se tornaram realidade. Nos EUA, com a eleição de Obama, houve a mesma expectativa em relação à questão racial?
Biko Baker - O movimento negro nunca teve grandes expectativas de que Obama realizasse milagres. Mas também não pensamos que muitos brancos fossem tão relutantes à mudança na presidência.
No entanto, esperávamos que pelo menos houvesse um novo caminho aberto para pessoas de cor e pobres. Foi isso que ele nos prometeu durante sua primeira campanha. E mesmo assim vivemos em período tão carregado pelo preconceito racial como em 1968.
Os apoiadores de Obama apontam que nosso Legislativo dividido é a fonte dos problemas, mas acredito que nosso presidente deve ser criticado por não antecipar o nível ao quais seus oponentes se rebaixariam, usando velhos estereótipos racistas para atacá-lo.
No fim das contas, estamos debatendo o racismo e o assassinato de pessoas negras, ao invés de discutir formas de trabalhar juntos e fazer com que pessoas pobres possam ter melhores condições de vida. Talvez Obama tenha sido ingênuo e não entendeu a força da elite política dos EUA para manter o status quo.
O que eu sei é que os negros não estão melhores economicamente do que estavam antes dele entrar na Casa Branca, e seu legado será manchado por isso.
Brasil de Fato - A maioria das mortes de negros no Brasil nas periferias são registradas pela polícia como “autos de resistência”. Esse termo jurídico é questionado por movimentos sociais, porque protege o policial e culpa quem morreu sem qualquer investigação. Nos EUA, o termo usado é “homicídio justificado”. A situação nos EUA de proteger a polícia ao matar negros é similar ao Brasil?
Biko Baker - Antes dos celulares com câmeras, a polícia usava o “homicídio justificado” como desculpa para seus abusos. Agora, com tantas dessas tragédias sendo flagradas e registradas, ficou claro para a sociedade que a polícia nem sempre conta a verdade.
Enquanto muitos advogam colocar câmeras nos uniformes dos policiais e dizem que isso vai resolver o problema, o movimento negro acredita que o sistema inteiro em que vivemos construídos na criminalização e militarização de comunidades pobres, é o problema. Muitas pessoas e instituições se beneficiam economicamente desse sistema, como departamentos de polícia locais, que recebem enormes quantias de dinheiro do governo. A menos que consigamos que o Estado valorize nossas vidas, a polícia sempre vai sair impune ao assassinar negros.
Brasil de Fato - Também no Brasil, o Congresso quer passar um projeto de lei que reduz a maioridade penal de 18 para 16 anos. O EUA adotou medida similar, mas vários estados já discutem aumentar a idade penal, por perceber que a medida não reduz a violência. Como você analisa a intenção de reduzir a maioridade?
Biko Baker - Os EUA prenderam aproximadamente 1 milhão e 300 mil jovens com menos de 18 anos em 2012. Só 61 mil dessas prisões foram relacionados à crimes violentos. Isso significa que prendemos uma maioria por crimes não violentos. Isso não é um pouco extremo?
É claro que o sistema de justiça juvenil é um grande negócio para governos locais que precisam dar empregos à classe trabalhadora que foi demitida pela economia em crise.
Os EUA construíram um modelo econômico inteiro baseado em punir crimes não violentos, quando isso deveria ser tratado nas comunidades locais e famílias.
No fim das contas, se tornou legal mirar nos jovens, porque torna mais fácil justificar a criminalização contínua das comunidades pobres negras. Se o medo for criado e as pessoas acreditarem que a juventude quer assassiná-las, é mais fácil justificar esse modelo quebrado de sociedade em que vivemos.



Fonte:.brasildefato.com.br

13/05/2015

segunda-feira, 27 de abril de 2015

DANNY GLOVER: “O RACISMO TEM UMA RELAÇÃO FUNCIONAL COM O CAPITALISMO”



 
Danny Glover
Em visita ao Brasil, ator e ativista norte-americano falou ao Brasil de Fato sobre racismo, as condições dos trabalhadores nos Estados Unidos e o potencial do cinema para conscientizar o público.
Por José Coutinho Júnior, De São Paulo (SP)
Danny Glover ainda não sabia, mas na tarde daquela quarta-feira (15), estaria exausto. O ator, ativista e produtor norte-americano veio ao Brasil para participar de um congresso da CUT na terça-feira (14). No dia seguinte, acordou cedo, saiu de seu hotel próximo ao aeroporto de Guarulhos e foi, acompanhado de militantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), conhecer a Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF).
Tomou café, conversou com a coordenação da escola e conheceu mais de 60 estudantes do mundo inteiro, todos parte de um curso de teoria política e que não pouparam os flashes das câmeras. 
“É incrível existir um local que prepara as pessoas para lutar por um mundo melhor. Isso é o que essa escola representa. Esse lugar é um sopro de ar fresco. É um presente estar aqui hoje. Olhando para vocês, que são o futuro”, disse, sob uma chuva de palmas.




Glover, famoso no mundo todo por sua atuação em filmes como A Cor Púrpura, Mandela e Máquina Mortífera, sempre foi ligado às causas sociais. Quando jovem, fez parte de movimentos que lutaram contra a segregação racial nos Estados Unidos. Filho de trabalhadores que participavam de sindicatos, ele denuncia a falta de direitos e a exploração a que muitos trabalhadores estão submetidos no país.
Hoje, é produtor de cinema, realizando diversos documentários na Palestina, Tailândia e também sobre temas sensíveis aos estadunidenses, como o porte de armas e o aquecimento global. 
No final da visita à escola, o ator plantou uma muda de cerejeira no jardim do local. Com dificuldades para colocar e regar a muda na terra, brincou: “I’m too old for this shit [estou muito velho para essa merda]”, bordão de Roger Murtaugh, o icônico policial de Máquina Mortífera.

Mas, por mais que estivesse velho e reclamasse, Murtaugh nunca deixava de fazer o que tinha de fazer para salvar o dia. E assim também é Danny Glover: apesar da exaustão, está ao lado dos trabalhadores, participando de atos, congressos e movimentos sociais pelo mundo. 
Abaixo, confira a entrevista de Danny Glover ao Brasil de Fato sobre o racismo nos Estados Unidos, sua trajetória como militante, o que pensa do Brasil e o potencial do cinema para conscientizar as pessoas, concedida pouco tempo antes do ator tirar seu merecido sono: 
Danny Glover
Brasil de Fato - Você nasceu no período em que os negros eram segregados da sociedade americana. Como era ser negro nessa época?
Danny Glover - Eu fui nutrido por uma cultura, não só daquela época, mas do meu passado. Minha bisavó nasceu em 1853. A emancipação dos escravos ocorreu quando ela tinha 10 anos. E a conheci quando era criança, ela tinha mais de 90 anos. Há uma conexão entre a minha vida, a minha raça e o pensamento político da minha família. Minha mãe foi a primeira pessoa da família e da comunidade a se formar numa universidade, em 1942. Meus avôs conseguiram, após trabalhar muito tempo como camponeses, comprar uma propriedade rural de 52 hectares. Minha mãe e seus irmãos foram à escola e não tiveram que colher algodão na época da colheita. Isso foi um grande sacrifício para a família, pois eles precisavam de todas as mãos possíveis para colher e pagar as contas. Minha mãe estava internamente grata pelos pais por ir à escola. A escola se tornou algo cravado na consciência da minha família como um local necessário para se seguir em frente na vida. Meus avós, que tinham a educação mais básica, viram que era esse o futuro e fizeram o sacrifício para que seus filhos estudassem. É esse tipo de coisa que moldou minha vida. 
Nasci em 1946, oito anos depois da decisão da suprema corte americana que disse que “igual não é igual”. Foi a fundação dos movimentos que lutaram pelos direitos civis e antissegregação. A ideia de criar locais e acomodações diferentes para negros e brancos virou lei. Essa segregação, que afetou meus pais imediatamente, se tornou o catalizador para que eu iniciasse o processo de entender a relação que tenho com o meu país como um cidadão. Meus pais eram carteiros, ligados ao sindicato, e, frequentemente, conversavam sobre o trabalho militante deles no sindicato e como isso se conectava aos movimentos dos direitos civis. Escutava isso, além de ler muito.
Sou de São Francisco, California, uma cidade muito radical, progressista. Tinha o sindicato mais progressista do país, formado por trabalhadores de armazéns e portos. Era um dos grupos mais radicais: foi o primeiro a boicotar bens sul-africanos, dizendo que não descarregariam produtos do país do Apartheid. As políticas estudantis, nas duas universidades da Califórnia, a cultura que emergiu com os hippies, os panteras negras, foram parte em especial do meu modo de entender o que estava acontecendo no mundo. 
Quando estava com 14, 15 anos, comecei a participar do movimento pelos direitos civis, inspirado nesse atleta incrível chamado Mohhamad Ali, quando disse que “I Ain't Got No Quarrel With The vietcong... No vietcong ever called me nigger [não tenho desavenças com os vietcongs, nenhum vietcong jamais me chamou de preto]”. Foi uma frase simples, mas que teve implicações enormes para mim e para a sociedade. Quando tinha 20 anos, tudo isso estava em mim. Todos esses elementos progressistas se tornaram parte da minha consciência e abracei tudo isso.
Em 1987, vou para a San Francisco State, uma universidade que passa por outro nível de radicalização, com grupos de estudantes negros. Tudo isso me situa e molda a forma como lido com a cultura, o que leio, o que escuto.
Brasil de Fato - Como a arte, principalmente o cinema, pode levar questões sociais às pessoas e ser transformadora?
Danny Glover - Sempre assisti filmes de vários países e cineastas: brasileiros, argentinos, bolivianos, europeus, africanos, japoneses... os trabalhos de Fellini, Truffaut, Bergman, todos esses filmes e diretores me influenciaram. Quando era jovem, trabalhava numa área diferente do teatro. Geralmente, as peças de teatro tem uma estória, uma estrutura organizada, que se manifesta ao longo da obra, mas me envolvi no que foi considerado “arte negra”. Eram peças de agitação e propaganda. Curtas, que tinham como objetivo passar uma mensagem ideológica. Sobre como se tornar militante, conseguir emprego. Eram peças muito políticas.
Então, eu via o drama como algo político, uma forma de transmitir essas ideias de uma forma diferente. Esse foi o começo da minha relação com teatro e arte. E como fui formado por isso, o que eu queria fazer com a arte, na maioria das vezes, difere da agenda que a indústria me apresentou. Fiz muitos filmes populares e comerciais, mas sempre tive essa inclinação de querer fazer filmes menores, que tenham um significado.
Só nos últimos dez anos consegui fazer o tipo de arte com caráter político similar ao que tinha me formado, via documentários ou narrativas. Como produtor, já fiz três filmes palestinos, dois tailandeses, um documentário sobre o movimento de direitos civis, um sobre aquecimento global e outro sobre a liberação de armas. São essas experiências que me moldaram como artista, ator e cidadão, e me fizeram pensar em como manifestar essas ideias no meu trabalho. 
Brasil de Fato -  É possível fazer filmes com um caráter crítico e social em Hollywood?
Danny Glover - É difícil dizer. Tento fazer um filme sobre a revolução haitiana por anos. É obviamente uma história sobre negros, e tem sido difícil. Mas por propósito de custos, o filme tem de ser fora do sistema. Se fizesse dentro, o custo seria 30% ou 40% maior. Sob esse ponto de vista, é possível? Mas quando se pensa em produções culturais, a forma como o cinema pode moldar pensamentos em um curto período de tempo é algo incrivelmente bom para nós, e isso precisa ser explorado.
Brasil de Fato -  Como você vê o racismo hoje nos EUA, principalmente após o que ocorreu em Ferguson?
Danny Glover - Ferguson e outros lugares semelhantes são criados pela ausência de qualquer estrutura, além da brutalização da força policial. A questão racial é algo muito enraizado na minha vida, no que faço. O que penso é que muitas vezes se ignora que a raça está ligada, tangencialmente, a muitos outros temas, como pobreza, saúde, procura de empregos. Prestamos atenção no racismo explícito, mas acabamos ignorando esse racismo mais sutil. O problema é que a raça é obscurecida por outros problemas programados na nossa cabeça pelo consumismo. Para manter nosso padrão ou lugar nas nossas vidas, precisamos manter certas necessidades físicas e psicológicas. 
Assim, o racismo tem uma relação funcional com o capitalismo, na exploração dos negros como mão-de-obra barata. E para romper com isso, precisamos pensar em outros sistemas e formas. Que potencial um outro sistema, como o socialismo, poderia ter nessa questão? Como falar de raça sobre outro ponto de vista e criar uma estrutura que melhore o planeta e a humanidade? Quais ferramentas e políticas que precisamos para isso?
Brasil de Fato -  Você está engajado na luta sindical dos EUA. Qual a situação dos trabalhadores no país, em especial os negros?
Danny Glover - Estatisticamente, há 40 anos, a renda dos trabalhadores vem diminuindo significativamente. Não só isso, os trabalhadores americanos trabalham mais horas, o número de mulheres que compõem a força de trabalho mais que dobrou nesse tempo, não porque há novas oportunidades para mulheres, mas porque o dinheiro que elas ganham é crucial para manter a casa. 
Os trabalhadores americanos brancos ganham mais que os negros, e os números para as mulheres são menores ainda. Há uma situação onde negros têm as maiores taxas de desemprego, menores condições de economizar dinheiro e acumular bens no mesmo trabalho.
Brasil de Fato - Você já visitou o Brasil várias vezes. Como você enxerga o racismo no país? Um garoto negro de 10 anos foi assassinado recentemente em uma favela do rio pela Polícia Militar... 
Danny Glover - O racismo e a militarização da polícia nas comunidades negras é algo que ocorre em várias partes do mundo e temos que nos preocupar com isso. Como o Estado, junto com a sociedade, se aproximam desse problema? E qual o papel da polícia na sociedade? Por que não houve uma comoção no espaço público causada pela morte desse menino? A morte desse garoto é emblemática. As pessoas da favela estão excluídas economicamente da sociedade, mas também psicologicamente. 
Esse tipo de violência acontece com tanta regularidade que o Estado deve ser responsabilizado. Não me interessa se o Estado é de direita ou esquerda, ele tem de tomar medidas, desenvolver políticas públicas para melhorar a vida nas comunidades e das crianças negras e pobres, valorizando a vida delas. 
Brasil de Fato -  Para terminar, você pensa um dia em fazer um filme sobre o Brasil?
Danny Glover - Claro! Adoraria fazer um documentário sobre o Brasil. Não tenho planos ainda, mas, provavelmente, é algo que vou fazer.


FONTE :http ://www.brasildefato.com.br/
17/04/2015


quarta-feira, 1 de abril de 2015

A LAICIDADE E O SAGRADO



No Brasil, feriados religiosos ainda são impostos a todo país, mas contanto que eles sejam católicos.
 
De acordo com a Constituição, o Brasil é um país laical, isso é não tem nenhuma religião oficial. Respeita a diversidade de crenças e defende a liberdade de todos os cultos.
Reconhece e garante os direitos de todos os cidadãos, religiosos ou não, brasileiros e estrangeiros que vivam ou estejam entre nós, unidos pelo laço comum de sermos cidadãos da mesma família humana e membros da comunidade dos seres vivos que habitam o planeta Terra.
 
No entanto, até as pedras sabem que, ainda no Brasil de hoje, a religião continua a ter um poder imenso sobre os destinos da sociedade e, uma vez ou outra, é usada para fins políticos e interesses individuais ou grupais que nada têm a ver com o projeto da fé.
Nesses dias, está novamente em discussão, um projeto de acordo entre a Igreja Católica, representada pelo Vaticano e o Estado Brasileiro.
Em tempos não tão remotos, uma Concordata semelhante garantia alguns privilégios especiais para as instituições católicas no país. Ao mesmo tempo, sabe-se que alguns grupos visam tornar o Brasil um país de cultura “pentecostal”. 
Na Câmara, uma bancada de deputados se auto intitula “evangélica”. Sem maiores preocupações éticas e em nome da fé, esses deputados vetam projetos que lhes parecem contrários ao modo como eles compreendem ao pé da letra alguns preceitos bíblicos, enquanto fazem questão de esquecer outros.
E, ao mesmo tempo, como se fosse uma missão sagrada, defendem os interesses das empresas que financiaram suas campanhas ou de seus grupos ditos religiosos. A dificuldade de relacionar a laicidade dos Estados com as questões religiosas não existe somente no Brasil. 
Atualmente, em vários continentes, aparecem sob a forma de fortes tensões e violências. Em países como o Senegal e o Paquistão, muitas pessoas foram feridas e algumas mortas em conflitos inter-religiosos. 
 
Na Nigéria e em outros países africanos, dezenas de Igrejas cristãs, principalmente evangélicas, foram incendiadas e muitas pessoas foram assassinadas.
Cristãos africanos pagaram um preço alto porque alguns jornais da Europa, considerada pelos muçulmanos fundamentalistas, como cristã, insultam Maomé e os princípios da fé islâmica. 
Da mesma forma, minorias islâmicas são discriminadas e perseguidas em alguns países da Europa e em algumas regiões da Índia. Na Irlanda ainda persistem conflitos culturais e políticos que se manifestam como divisão entre católicos e protestantes. 
Na Europa ocidental, uma boa parte da sociedade política e cultural considera que as religiões estão moribundas ou mesmo acabadas. Por isso, sentem-se com o direito de insultar a fé das pessoas e usar o nome de Deus como motivo para chacota e caricaturas de cunho pornográfico e de baixo calão. E defendem esse modo de proceder como direito e liberdade de expressão. 
Em nome da laicidade, o governo francês proíbe que a mulher muçulmana use o véu islâmico nas ruas e, em ambientes públicos No entanto, as freiras católicas viajam de trem ou avião, com o véu religioso e nenhuma foi acusada de desrespeitar a lei. Arautos do capitalismo veem nesses conflitos um choque de civilizações.
Na verdade, é apenas um choque de cinismos e simplificações racistas. No Brasil, feriados religiosos ainda são impostos a todo país, mas contanto que eles sejam católicos. Em muitos lugares, para não perder o emprego, adventistas do sétimo dia são obrigados a trabalhar no sábado.
E quase a cada dia, um templo de algum culto afro-brasileiro é vítima de violência e preconceito. Ao celebrar nesses dias a Quaresma, as Igrejas mais antigas leem textos do evangelho como as acusações de Jesus contra os sacerdotes do templo que exploravam viúvas pobres e ensinavam que Deus precisa de sacrifícios para abençoar e proteger as pessoas. 
 
Jesus revelou que o mais sagrado de tudo é a vida. Deus mora no coração de todas as pessoas humanas e pede a cada um/uma de nós descobri-lo no outro, no respeito às outras culturas e religiões, como no cuidado com a natureza e na comunhão com todo ser vivo. 

Marcelo Barros
Marcelo Barros é monge beneditino e teólogo. Atualmente, é coordenador latino-americano da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT) e assessora as comunidades eclesiais de base e movimentos sociais.

Fonte: http://www.brasildefato.com.br
17/03/2015