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sexta-feira, 7 de agosto de 2020

ÁFRICA: UM POEMA PARA VOCÊ



 

                       Trechos do cordel: África: Um Poema Para Você

Autores: Luiz Cláudio & Rodrigues Neto


I

Minha gente! Vamos ver

Pra não cometer engano,

É bom a gente saber

O valor do ser humano;

É preciso conhecer

O Continente Africano.

II

Esse imenso Continente

Também tem suas belezas,

Meditando, eu vejo em frente

Lutas, trabalhos e nobrezas,

Sem sair da minha mente

Tristezas, fome e pobreza.

III

Numa visão fraternal,

A África ganha atenção,

Tem sentido universal

Minha singela canção,

Pois, no contexto geral

É bonita esta nação.


terça-feira, 4 de agosto de 2020

A LUTA DE TEREZA DE BENGUELA E AS MULHERES DA RESISTÊNCIA

Na semana em que se comemora o Dia da Mulher Negra, latino-americana e caribenha, recordemos Benguela.

Edilene Cenourinha


                       Tereza de Benguela                

"O Quilombo de Quariterê existiu de 1730 a 1795, e a liderança de Tereza de Benguela resistiu até 1770, quando foi presa e morta pelo Estado" – (Reprodução)

 

O dia 25 de Julho é a data de celebrar o dia nacional de Tereza Benguela e Dia Internacional da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha. Tereza de Benguela, ou “Rainha Tereza” como ficou conhecida em sua época, viveu no século XVIII no Vale do Guaporé, no Mato Grosso. Ela liderou o Quilombo de Quariterê, após a morte de seu companheiro, José Piolho, morto por soldados.

Dia da Mulher Negra Latino-americana: seis histórias atuais que representam esta luta

Segundo os registros históricos, ela comandou uma comunidade de três mil pessoas. Uniu negros, brancos e indígenas para defender o território onde viviam, resistindo bravamente à escravidão por mais de 20 anos. Ela comandou a estrutura política, econômica e administrativa da comunidade. A Rainha Tereza criou uma espécie de parlamento e reforçou a defesa do Quilombo com armas adquiridas a partir de trocas ou deixadas após conflitos.

O Quilombo de Quariterê existiu de 1730 a 1795, e a liderança de Tereza de Benguela resistiu até 1770, quando foi presa e morta pelo Estado. O mesmo Estado que mata e oprime as mulheres nos dias de hoje. Portanto, não podemos esquecer Tereza de Benguela, é preciso levantar sua bandeira de luta, nos revoltar contra esse Estado genocida e reivindicar sua história, que não é lembrada nos livros ou sequer é estudada nas escolas.

Patriarcado e racismo sustentam o capitalismo

Desde os primórdios da história, a humanidade foi sendo estruturada por outras relações de dominação, como racismo, o colonialismo e a opressão da sexualidade. Na América Latina, nossa história é marcada pelo colonialismo, e pelo racismo, que produzem, estruturam o capitalismo, e aprofundaram o patriarcado. O patriarcado, origem da opressão sobre as mulheres, é um sistema fundamentado na divisão sexual do trabalho e na propriedade privada, e é muito anterior ao capitalismo.

No modo de produção capitalista, o patriarcado, assim como o racismo, torna-se base de sustentação da ordem do capital, se ampliando a partir da exploração do trabalho e da vida das mulheres. O sistema capitalista, patriarcal e racista, atua em um sentido de totalidade, articulado no todo da realidade social.

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As mulheres, ao longo da história, foram construindo formas de resistência e enfrentamento ao patriarcado e as lutas feministas nos dias de hoje foram forjadas a partir do legado de mulheres como Tereza de Benguela.

Os desafios colocados hoje não são poucos. As mulheres permanecem excluídas vastamente dos espaços em que se definem as normas e políticas que incidem diretamente sobre suas vidas. As mulheres negras e indígenas são aquelas sobre quem incidem mais diretamente os processos de precarização da vida. Mas nós interpelamos o Estado, denunciamos as violências sofridas e pressionamos para que nossos corpos e vozes estejam presentes nos espaços em que políticas de segurança e diretrizes econômicas se definem.

Vozes de Tereza de Benguela, e muitas outras, ecoam nas manifestações de movimentos feministas e de mulheres que são diversos, e que apontam caminhos em tempos de crise profunda do capital. Precisamos nos mobilizar na ofensiva contra esse modelo. O momento nos exige muita organização e a capacidade de nos articular para fazer lutas que possam alterar nossa vida cotidiana, para transformar a história.

Fonte: BdF Minas Gerais

Edição: Rodrigo Chagas e Antônia Sampai

 Fonte: www.brasildefato.com.br

Belo Horizonte | Brasil de Fato (MG) 28 de Julho de 2020



sexta-feira, 31 de julho de 2020

REVISITANDO A NOSSA HISTÓRIA PELA LENTE DOS VENCIDOS





Trechos do Cordel: REVISITANDO A NOSSA HISTÓRIA PELA LENTE DOS VENCIDOS 

Luiz Cláudio &   Rodrigues  Neto.


I

A minha grande missão

Todos os dias, toda hora,

É sempre lembrar ao povo

Que tivemos em outrora

Um incansável guerreiro

Que o almado por ele chora! ...

II

Sabe-se pouco desse ícone,

É nosso irmão brasileiro

Nasceu no maior quilombo,

Esse sagrado celeiro

Que foi lar e fortaleza

Do homem virtuoso e obreiro! ...

III

Esse quilombo meu irmão

É o quilombo de Palmares

Localizado na serra

Um espaço de bons ares:

– Nossa serra da Barriga,

Lá fizeram muitos lares! ...

IV

Era um lugar afastado

Ficava entre dois estados

Alagoas e Pernambuco

Lá foram os humilhados

Fugindo dos coronéis

Esses seres depravados! ...

V

Era uma terra bem fértil

Com vegetação abundante

E bastante palmeirais,

Daí esse espaço importante

Ser chamado de Palmares,

Pois, num verso triunfante...

VI

Digo com sabedoria,

É fato na nossa História

Que o século dezesseis (XVI)

Vivenciara com glória

Uma batalha ferrenha

Com altivez e simplória...

VII

De um povo que lutava

Por sua libertação

Abrigando-se em Palmares,

Fugindo da escravidão

Do engenho Pernambucano,

Que a tortura era a lição! ...







quarta-feira, 22 de julho de 2020

MÍDIA NEGRA: CONHEÇA CINCO (5) BLOGS, SITES E PORTAIS ANTIRRACISTAS.


Veículos têm material produzido com base nas reflexões sobre o racismo e seus impactos na sociedade

Iyalê Tahyrine


A imprensa negra, a comunicação popular e outros grupos se propõem a trazer uma nova perspectiva sobre a realidade da população brasileira - Janine Moraes


O primeiro jornal oficial brasileiro foi criado em 1808, o Gazeta do Rio de Janeiro. A principal finalidade do meio era difundir os interesses da Coroa Portuguesa. Desde então, foram se conformando os grupos midiáticos familiares que permanecem até hoje no Brasil, com a formação dos veículos de comunicação atrelada ao pensamento das classes dominantes.
O fato da mídia ter sido conformada dessa maneira no Brasil implicou em uma predominância do formato de comunicação comercial, visando o lucro e de caráter elitista, racista e machista. Por outro lado, no contraponto dessa mídia comercial, surge a imprensa negra, a comunicação popular e outros grupos que se propõem a trazer uma nova perspectiva sobre a realidade da população brasileira.
Na série de dicas do Brasil de Fato Pernambuco de hoje, listamos cinco sites, blogs e portais organizados por pessoas negras e que se propõem a trazer notícias, artigos, reflexões e uma outra visão sobre as questões que envolvem a população negra no Brasil e no mundo.
O Portal Geledés é organizado pelo Geledés - Instituto da Mulher Negra,que é uma organização política brasileira de mulheres negras fundado em 1988 que vem desde então encampando a lutra contra o racismo e o sexismo. Seu nome deriva do conceito de gelede, sociedades secretas femininas na cultura iorubá. É uma das maiores ONGs de feminismo negro do Brasil com várias campanhas e ações significativas contra o racismo.
Criado em 2015 por um grupo de jovens comunicadores da Universidade Estadual Paulista (UNESP), o Alma Preta é uma agência de jornalismo especializado na temática racial do Brasil. O site do Alma Preta envolve reportagens, coberturas, colunas, análises, produções audiovisuais, ilustrações e divulgação de eventos da comunidade afro-brasileira.
O CEERT é uma organização não-governamental brasileira fundada em 1990. A ONG declara procurar garantir os direitos da população negra apoiando a luta pelo fim das desigualdades étnico-raciais e o preconceito existente na sociedade brasileira. Além disso, desenvolve e executa projetos voltados para a promoção da igualdade de raça e gênero.
O projeto Blogueiras Negras nasceu em março de 2012, mais precisamente no dia 8, Dia Internacional da Mulher. O intuito do projeto desde o início era ser referência para as mulheres de ascendência africana e aquelas que se identificam com o feminismo e a luta antirracista das mulheres negras. Atualmente conformam uma comunidade online com mais de 1.300 mulheres. O blog é o veículo de comunicação produzido coletivamente para dialogar com todas as mulheres negras e afrodescendentes, mas também com todas as mulheres que partilham a luta feminista e antirracista.
Para quem gosta de arte e literatura, o Resistência Afroliterária nasceu com o intuito de ser um espaço de divulgação e exposição de arte negra. No site é possível encontrar análises, resenhas, divulgações, indicações, reflexões e notícias sobre literatura e cultura feita por e para pessoas negras.



Brasil de Fato | Recife (PE) | 18 de Junho de 2020

Edição: Raquel Júnia e Vanessa Gonzaga




O CENTENÁRIO DE FLORESTAN FERNANDES, UM TEÓRICO A SERVIÇO DA CLASSE TRABALHADORA.

O sociólogo que levou sua origem de classe para os livros viu a revolução como essencial para transformação do Brasil

Caroline Oliveira

 Como deputado, Florestan Fernandes foi defensor do financiamento público da educação e responsável pela parte da Constituição de 1988 que trata da autonomia das universidades - Arquivo da família da)

Quando Florestan Fernandes terminou o curso de Ciências Sociais, em 1944, não saía da Universidade de São Paulo (USP), um sociólogo formado somente pelos livros. A sociologia, na verdade, chegou para Florestan primeiro por meio do trabalho, e somente depois pela reflexão. Esta é uma formulação do próprio sociólogo que permeia toda a complexidade e totalidade de seu pensamento. 

Filho único de Maria Fernandes, portuguesa que chegou ao Brasil para trabalhar no campo aos 13 anos de idade, Florestan nasceu em 22 de julho de 1920 e viveu os primeiros conflitos de classe dentro da casa da família Bresser, onde a mãe trabalhou como empregada doméstica, no município São Paulo (SP). Os poucos anos ali bastaram para Florestan entender que a casa, para ele e sua mãe, era do quarto onde dormiam, no quintal, somente até a cozinha. Dali para frente, a barreira só podia ser transpassada com a permissão e o acompanhamento de um dos Bresser.

Permissão, a mesma, que não lhe foi solicitada para ter o nome trocado pelos donos da casa. Florestan, o nome de um personagem da ópera Fidelio, de Ludwig van Beethoven, não era cabível para o filho de uma empregada doméstica. Chamavam-no, então, de Vicente, que consideravam mais apropriado. “Também o nome ele não podia ter”, conta Florestan Fernandes Júnior, filho do sociólogo e jornalista.

O ponto final da experiência na casa Bresser – que anos mais tarde ele considerou essencial do ponto de vista sociológico – se deu quando os patrões pediram a Maria Fernandes que entregasse Florestan a eles. A portuguesa respondeu “só cachorro que se dá”, pegou suas coisas e foi morar em cortiços. 

 

“A maior luta dele durante a vida foi não se afastar de suas origens.”

 

Diante da situação, Florestan, aos seis anos de idade, começou a trabalhar como engraxate, para ajudar na sobrevivência da pequena família. “Assim foi vida deles, vivendo com condições precárias. Todo o aprendizado dele vem desse período e ele nunca se afastou. Ele falou até que a maior luta dele durante a vida foi não se afastar de suas origens”, relata o filho. Somente aos 17 anos, depois de passar por diversos empregos, Florestan retomou os estudos, fez um curso de madureza para concluir o que hoje se conhece por Ensino Médio e ingressou na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (FFLCH-USP).

Para Miguel Yoshida, editor da Expressão Popular, compreender a origem de classe de Florestan é “fundamental” para compreender todo o seu desenvolvimento teórico. “Por mais que por durante boa parte da vida ele estivesse ligado à universidade com ocupações acadêmicas, ele nunca perdeu essa perspectiva de olhar para o mundo e para a condição dos ‘de baixo’, nunca esteve fora da perspectiva dele”. Prova disso, diz Yoshida, são os temas sobre os quais ele teorizou: a questão racial e de classe, majoritariamente.

Burguesia dependente e a prática revolucionária

A partir desse olhar, Florestan Fernandes constrói uma conexão entre pensamento e prática que permanece por todo o seu trabalho como uma tarefa política. O objetivo: fornecer as ferramentas necessárias para a classe trabalhadora conseguir transformar a própria realidade.

“A preocupação central dele nos últimos 20 anos de vida é de conseguir construir uma compreensão do País que possibilite a transformação dele. Então, a teoria do Florestan nos últimos 20 anos se dedica a isso, a essa construção dessa teoria da revolução brasileira”, explica Yoshida.

O primeiro passo para a construção dessa prática revolucionária foi entender a origem das classes sociais no Brasil. Para estudar o comportamento das classes dominantes, Florestan estudo os anos da escravidão e demonstrou como a transição da Colônia até a República, incluindo a abolição da escravatura, ocorreu sem rupturas institucionais de fato. O sociólogo identifica a manutenção do padrão de dominação de classe, com o cultivo de heranças escravocratas refletidas nas dinâmicas sociais do país.

 

“Não tem uma possibilidade nacional de desenvolvimento autônomo.”

 

Diferente de outras ao redor do mundo, segundo a leitura de Florestan, a burguesia brasileira não precisou realizar uma revolução para concretizar o modo de produção capitalista. Aqui, o capitalismo e as dinâmicas imperialistas e de escravização se entrelaçaram para fazer surgir o que ele chama de "capitalismo dependente". 

Tal dependência faz com que a burguesia brasileira precise realizar concessões ao capitalismo central para conseguir manter qualquer tipo de relação, uma vez que não está “no mesmo pé de igualdade”. Hoje, isso se observa na desindustrialização do Brasil e na condição de exportador de commodities.

Apoiado nesta ideia, Florestan defendia que “o desenvolvimento aqui não tem uma possibilidade nacional de desenvolvimento autônomo, não tem um desenvolvimento autônomo, ele vai estar sempre atrelado às demandas desse capitalismo central”, explica Yoshida.

Nesse sentido, a proposta política da burguesia nunca abarcará as transformações necessárias para o desenvolvimento social do País, como as reformas agrária e educacional. Ao contrário, na mesma medida em que é submissa ao capitalismo central, submete as classes trabalhadoras com violência, nos mesmos moldes escravocratas.

A construção de um país pautada em reformas agrária e educacional, coloca Florestan, é tarefa, portanto, dos trabalhadores. E é aqui que entra a prática revolucionária e a educação como um dos pontos de partida para tal movimento. 

Educação para a auto emancipação dos trabalhadores

Durante toda a vida, Florestan se preocupou intensamente com o tema da educação e defendeu um ensino gratuito, laico e de qualidade – não somente uma formação técnica, mas uma ferramenta de transformação social. Com acesso ao conhecimento acumulado pela humanidade e à prática militante, é possível alcançar a prática revolucionária e mudar as bases sobre as quais as classes dominantes se ergueram, defendia Florestan.

 

“Ele valorizava demais esse lado do conhecimento, do letramento, do direito à educação.”

 

Nesse sentido, já na última década de sua vida, enquanto foi deputado (1987-1995) pelo Partido dos Trabalhadores (PT), Florestan ajudou a criar as bases do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb) bem como os princípios constitucionais da educação brasileira, na Assembleia Constituinte. 

Segundo o deputado federal Ivan Valente (PSOL-SP), que trabalhou o tema da educação ao lado de Florestan Fernandes na Assembleia Constituinte, o sociólogo foi responsável pela elaboração do capítulo da Constituição que trata da autonomia das universidades e das garantias de uma educação de qualidade. 

“Ele virou a grande referência de todos os movimentos sociais e educacionais, no Congresso Nacional. Ele foi grande a referência para a construção de uma visão constitucional da educação como dever do Estado e direito do cidadão”, afirma Valente.

“Claro que Florestan é um socialista marxista, alguém que tinha conhecimento de que o pior analfabeto é o analfabeto político. Então, ele valorizava demais esse lado do conhecimento, do letramento, do direito à educação e do que significa conseguir universalizar a educação básica e ao mesmo tempo garantir a qualidade da educação com financiamento público de qualidade”, a fim de mitigar as desigualdades sociais. Para Valente, falar de Florestan Fernandes hoje, “é se contrapor a essa imensa mediocridade que nós estamos vivendo com a era Bolsonaro”.

“Debaixo do meu guarda-chuva cabem todos os radicais”

Amigo próximo do sociólogo, o jornalista Vladimir Sacchetta relembra uma frase que sintetiza significativamente quem foi Florestan Fernandes e como ele vivia de acordo com o seu objetivo de transformar o País: “Florestan era o Florestan, ele era uma bandeira em si”.

 

“O papel do intelectual era ser contestador e enfrentar as dificuldades e empregar as suas ferramentas teóricas sem nunca abandonar do horizonte a possibilidade de ter uma transformação social.”

 

Durante a sua campanha para deputado constituinte, da qual Sacchetta fez parte, o lema era “Contra as ideias da força e a força das ideias”, o que sintetiza bem uma campanha que agregou pessoas de diversas origens e espectros ideológicos. 

“Volta e meia aconteciam tensões no PT, e Florestan vinha daquele jeito doce, gentil, educado, um homem sisudo, aparentemente, com aquela sobrancelha que vinha por cima dos óculos, mas um ser humano muito doce, e dizia o seguinte: ‘Opa, espera aí, debaixo do meu guarda-chuva cabem todos os radicais’”, conta Sacchetta.

O engajamento para a transformação social nunca deixou que Florestan saísse de fato da política, mesmo dentro das universidades, onde praticava uma sociologia crítica e militante.

“O papel do intelectual era ser contestador e enfrentar as dificuldades e empregar as suas ferramentas teóricas sem nunca abandonar do horizonte a possibilidade de ter uma transformação social e da criação de um mundo mais justo, mais livre e mais feliz”, afirma Sacchetta.

Em 1969, durante a ditadura militar brasileira, o preço pago foi a aposentadoria compulsória com a publicação do AI-5, quando Florestan, então, decide se exilar nos Estados Unidos e no Canadá, onde foi professor titular na Universidade de Toronto. Florestan Fernandes Júnior relata que foi um momento de “muitas incertezas” para a família.

Em cartas escritas ao escritor e sociólogo Antônio Candido, um de seus amigos mais próximos, Florestan dizia não aguentar mais o exílio e que, se fosse para morrer, preferia voltar e morrer lutando. No fim, Antônio Candido sempre o convencia a esperar mais um pouco. 

Florestan volta ao Brasil, em 1972, mas só consegue voltar a dar aulas em 1978, quando Dom Paulo Evaristo Arns, o terceiro grão-chanceler da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), o reabilita, mesmo com a pressão dos militares para não fazê-lo. 

Tempos depois, ele parte definitivamente para a política partidária dentro do PT. “Ele aceita e diz para mim: ‘Filho, eu esperei a vida inteira por um partido de esquerda que nunca surgiu. Eu acho que não vou ter tempo de vida para esperar mais. Acho que esse partido não vai chegar tão cedo. E de todos os partidos que têm no Brasil hoje eu acho que o que está mais próximo daquilo que eu considero um partido progressista, de esquerda é o PT, por isso eu me filiei a ele e vou concorrer’”, relembra Florestan Fernandes Júnior.

A atualidade do pensamento de Florestan Fernandes

Outra missão assumida pelo sociólogo foi a construção uma frente democrática entre os partidos de esquerda e de enfrentar o autoritarismo. Ele dizia que boa parte dos progressistas acreditaram que tinham derrotado o nazismo e fascismo quando caíram Adolf Hitler e Benito Mussolini. 

Estavam enganados, afirmava Florestan. “O fascismo nunca morreu. Ele falava que o fascismo é o braço armado do capitalismo. Sempre que o capitalismo se sente ameaçado, esse braço aparece. E é isso que a gente está vendo hoje no Brasil em alguns outros lugares do mundo”, relembra Florestan Fernandes Júnior.

Hoje, com Jair Bolsonaro (sem partido) na Presidência da República, bem como Donald Trump nos Estados Unidos, Boris Johnson no Reino Unido, Andrzej Duda na Polônia, entre outros conservadores e ultraconservadores, Florestan Fernandes procuraria descobrir quais erros levaram ao cenário atual, acredita Vladimir Sacchetta. 

Esse era o perfil de atuação de Florestan dentro do PT, relata Sacchetta, onde ele questiona se a sigla irá se transformar um partido da ordem ou contra a ordem. “Ele discutia muito essa institucionalização do PT”, assim como as concessões feitas em nome da governabilidade em detrimento de ganhos para o povo, dentro do seu espectro da extrema esquerda.

“Talvez essa questão da nossa atualidade passasse por aí: onde a esquerda errou? Porque as reformas não foram aprofundadas?”, argumenta o jornalista, relembrando a defesa de Florestan sobre a formação de uma frente única de esquerda. “É justamente o que falta hoje”, resume.

Atualmente, Florestan Fernandes também permanece vivo na Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), em Guararema, São Paulo, idealizada pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em 2005. “Um espaço construído pela classe trabalhadora, tijolo a tijolo, para possibilitar a formação política de organizações populares de todo o mundo”, informa o movimento. 

Para Sacchetta, que também faz parte da Associação dos Amigos da Escola Nacional Florestan Fernandes, a escola do nome não poderia ser tido melhor. “Ele está lá. Na escola, moram as minhas utopias. A última morada do Florestan. Basicamente, ele é o reitor da escola e figura emblemática que inspira a luta do MST, que é o movimento social mais importante que a gente tem, do país, da América Latina e, quem sabe, do mundo”, conclui.

 

 

 

 

 

 

 

Brasil de Fato- São Paulo (SP) - 22 de Julho de 2020

 Fonte: https://www.brasildefato.com.br/