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sábado, 14 de março de 2015

DIA NACIONAL DA POESIA


Fonte: Universia Brasil

Nesse sábado, dia 14 de março de 2015, é comemoradoo Dia Nacional da Poesia.

A data não foi escolhida por acaso, uma vez que foi criada para homenagear um dos mais renomados poetas românticos brasileiros,Antônio Frederico de Castro Alves. Nascido na Bahia, no dia 14 de março de 1847, o escritor elaborou uma poesia marcada pela luta por fortes causas sociais, como a abolição da escravidão, por exemplo.


Além de Castro Alves, a poesia brasileira é reconhecida por outros grandes nomes brilhantes, como Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Vinícius de Moraes, Olavo Bilac, entre outros famosos autores.

Confira a seguir 7 famosos poemas de escritores brasileiros para comemorar essa importante data.


1-Os Ombros Suportam o Mundo (Carlos Drummond de Andrade)

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.                                             
Tempo de absoluta depuração.                                                                            
Tempo em que não se diz mais: meu amor.                                                        
Porque o amor resultou inútil.                                                                                          
E os olhos não choram. E as mãos tecem apenas o rude trabalho.                            
E o coração está seco. Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.              
Ficaste sozinho, a luz apagou-se, mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.                                                                                                                        
És todo certeza, já não sabes sofrer.                                                                          
E nada esperas de teus amigos.                                                                          
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?                                                    
Teus ombros suportam o mundo e ele não pesa mais que a mão de uma criança.  
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios provam apenas que a vida prossegue e nem todos se libertaram ainda.                                              
Alguns, achando bárbaro o espetáculo prefeririam (os delicados) morrer.      
Chegou um tempo em que não adianta morrer.                                                  
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.                                                          
A vida apenas, sem mistificação.


2-Vou-me Embora pra Pasárgada (Manuel Bandeira)

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei Vou-me embora pra Pasárgada Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção Tem telefone automático
Tem alcaloide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar — Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.


3-Ouvir Estrelas (Olavo Bilac)

Ora (direis) ouvir estrelas!
Certo, perdeste o senso!
E eu vos direi, no entanto
Que, para ouví-las, muitas vezes desperto
E abro as janelas, pálido de espanto
E conversamos toda a noite, enquanto a Via-Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto, Inda as procuro pelo céu deserto.
Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas?
Que sentido tem o que dizem, quando estão contigo? "
E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas

4-Amar e Ser Amado (Castro Alves)

Amar e ser amado!
Com que anelo
Com quanto ardor este adorado sonho
Acalentei em meu delírio ardente
Por essas doces noites de desvelo!
Ser amado por ti, o teu alento
A bafejar-me a abrasadora frente!
Em teus olhos mirar meu pensamento,
Sentir em mim tu’alma, ter só vida
P’ra tão puro e celeste sentimento
Ver nossas vidas quais dois mansos rios,
Juntos, juntos perderem-se no oceano,
Beijar teus labios em delírio insano
Nossas almas unidas, nosso alento,
Confundido também, amante, amado
Como um anjo feliz... que pensamento!?



5-Canção do Exílio (Gonçalves Dias)

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.
Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá; Em cismar — sozinho, à noite —
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.


6-O Relógio (João Cabral de Melo Neto)

Ao redor da vida do homem
há certas caixas de vidro,
dentro das quais, como em jaula,
se ouve palpitar um bicho.

Se são jaulas não é certo;
mais perto estão das gaiolas
ao menos, pelo tamanho
e quadradiço de forma.

Umas vezes, tais gaiolas
vão penduradas nos muros;
outras vezes, mais privadas,
vão num bolso, num dos pulsos.

Mas onde esteja:
a gaiola
será de pássaro ou pássara:
é alada a palpitação,
a saltação que ela guarda;

e de pássaro cantor,
não pássaro de plumagem:
pois delas se emite um canto
de uma tal continuidade


7-Sentimento do Mundo (Carlos Drummond de Andrade)

Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem e o corpo transige
na confluência do amor.
Quando me levantar,
o céu estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo,morto
o pântano sem acordes.

Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço que me perdoeis.

Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microscopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer

esse amanhecer
mais noite que a noite.


14/03/2015

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

A MONSTRUOSIDADE DE BELO MONTE E DESCALABRO EM ALTAMIRA QUE DILMA NÃO TEVE CORAGEM DE VER


Foto: Arquivo/Xingu Vivo

Em entrevista, D. Erwin Kräutler questiona: "Por que os teólogos não aproveitaram a audiência com Dilma para unir-se aos povos indígenas no grito uníssono de “Demarcação  já!”?

Por Patricia Fachin e João Vitor Santos  Do IHU-Online
A chegada de um novo ano quase sempre traz votos de renovação e esperança. Porém, 2015 não começa com esse espírito para quem vive nas cercanias das obras de construção da Usina de Belo Monte, em Altamira, no Pará.
Em entrevista concedida por e-mail para IHU On-Line, o bispo do Xingu e presidente do Conselho Indigenista Missionário – CIMI, dom Erwin Kräutler, denuncia o que já havia previsto: “a grande euforia que cinco anos atrás tomou conta da cidade de Altamira, a ponto de muitos carros e motos exibirem adesivos “queremos Belo Monte”, cedeu lugar a um surdo desânimo.
Até agora, nada do que comerciantes, empresários e os políticos de plantão esperaram e prognosticaram como a salvação do oeste do Pará se realizou. A cidade está quase intransitável. Homicídios, assaltos, arrastões estão na ordem do dia. O povo está apreensivo e assustado”, pontua.
A difícil situação apontada por dom Erwin é ainda mais complicada quando se tenta traçar uma perspectiva de futuro do governo que se inicia. Isso, levando em consideração as posturas que a presidente Dilma Rousseff vem adotando nesse seu segundo mandato. Além de não citar questões que são velhas demandas de povos indígenas em seu discurso de posse, a presidente nomeia Kátia Abreu para o Ministério da Agricultura.
 Sinais que, para dom Erwin, podem dizer muito do que pode vir pela frente. “Para Dilma, Belo Monte nunca foi assunto de pauta com movimentos populares ou a população diretamente impactada. (...) O governo continua a defender o latifúndio e os privilégios que tem concedido ao agronegócio contra os povos indígenas. (...) O rolo compressor continuará a passar por cima de todos nós aqui noXingu e em breve por cima dos povos do Tapajós e de outros rios da Amazônia”, prevê.
Dom Erwin Kräutler é bispo prelado de Xingu, PA, presidente do Conselho Indigenista Missionário - CIMI.
Confira a entrevista.

Dom Erwin Kräutler

IHU On-Line - Há mais de cinco anos o senhor alerta para os riscos e implicações sociais e ambientais da construção de Belo Monte. Como tem sido acompanhar esse processo, desde a elaboração do projeto até o início da construção da usina?



Dom Erwin Kräutler - Na realidade, essa luta contra o barramento do Rio Xingu já dura mais de 30 anos. Por algum tempo acreditávamos que o projeto fosse arquivado. Foi engano. Quando Lula assumiu o governo, em vez de definitivamente renunciar a essa monstruosidade, abraçou-o e secundando os pareceres eufóricos de sua ministra de Minas e Energia, Dilma Rousseff, deu ênfase especial à execução da obra, incorporando-a ao Programa de Aceleração do Crescimento - PAC.
As implicações sociais e ambientais estavam programadas, especialmente a partir daquele dia fatídico em que o Governo entendeu que as condicionantes exigidas pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente - IBAMA e pela Fundação Nacional do Índio - FUNAI não precisavam ser atendidas antes da instalação do canteiro de obras, mas poderiam ser cumpridas ao longo da execução do projeto. Com essa decisão, não foi instalado apenas o canteiro de obras, mas também o caos em Altamira. Durante a campanha eleitoral, a presidente Dilma veio visitar Belo Monte para gravar um vídeo. Seu avião pousou no aeroporto de Altamira. No entanto, ela não teve coragem de entrar na cidade para ver “in loco” o descalabro que nos assola.
IHU On-Line - Em que estágio se encontra a construção de Belo Monte?
Dom Erwin Kräutler - Volta e meia se noticia que a construção estaria atrasada por causa das várias manifestaçõescontrárias ao projeto. Mas, tenho a impressão de que está bastante adiantada. Já são derrubadas as casas nos bairros que serão atingidos, e as famílias, transferidas para as novas moradias construídas em concreto. Sei, no entanto, que nem de longe haverá casas suficientes para abrigar todas as famílias.
IHU On-Line - O senhor tem visitado várias comunidades da Prelazia do Xingu. Qual é o sentimento das pessoas em relação à construção de Belo Monte?
Dom Erwin Kräutler - A grande euforia que cinco anos atrás tomou conta da cidade de Altamira, a ponto de muitos carros e motos exibirem adesivos “queremos Belo Monte”, cedeu lugar a um surdo desânimo. Até agora, nada do que comerciantes, empresários e os políticos de plantão esperaram e prognosticaram como a salvação do oeste do Pará se realizou. A cidade está quase intransitável. Homicídios, assaltos, arrastões estão na ordem do dia. O povo está apreensivo e assustado.
Houve certo boom na construção civil devido à procura de aluguéis. Alguns ganharam somas exorbitantes cedendo quartos ou casas a preços exagerados. Mas essa onda passou quando a Norte Energia instalou a vila residencial bem próxima ao canteiro de obras. A vila possui infraestrutura completa, com escola, farmácia, supermercado, restaurantes, padaria, academia de ginástica, clube, biblioteca e áreas livres para recreação e lazer e ainda serviços de clínica geral, ginecologia, cardiologia, oftalmologia, pediatria, odontologia, pronto-atendimento, laboratório e salas de raios-X e ultrassonografia. Essas comodidades de primeiro mundo estão em manifesto contraste com as condições em que vivemos na cidade da Altamira.
Lula me assegurou, num dos encontros que tive com ele, que o governo havia aprendido a lição dos erros cometidos em outros empreendimentos e Belo Monteseria totalmente diferente. Mas, na realidade, mais uma vez se repete a já conhecida história da Usina Hidrelétrica Tucuruí, também no Estado do Pará (a 350 km ao sul de Belém), construída a partir de 1975 e inaugurada em novembro de 1984. Surgiu uma cidade-luxo em torno da obra, e a cidade de Tucuruí foi condenada à categoria de cidade-lixo. Nosso grande medo em Altamira é de que, na inauguração de Belo Monte, as prometidas melhorias em infraestrutura nem de longe estejam concluídas e, depois da festa, se desmonta o palanque e a população ficará entregue à própria sorte.
IHU On-Line - Que espécie de conflitos a construção de Belo Monte tem gerado entre as comunidades indígenas e entre indígenas e não indígenas? Como Belo Monte tem afetado e até mesmo rompido com a cosmologia indígena?
Dom Erwin Kräutler - Desde que decidiu construir Belo Monte, o governo se equivocou quanto aos impactos que os povos indígenas da Grande Volta do Xingu iriam sofrer. Propagou-se por todo o Brasil a informação de que nenhuma aldeia indígena seria inundada. E é verdade. De fato, a água do reservatório não vai submergir nenhuma aldeia. O contrário acontecerá: o rio que banha as aldeias vai sumir ou se tornará um córrego atrofiado com uma sequência de lagoas bem rasas. O peixe desaparecerá e sem água suficiente não haverá condições de sobrevivência nestes lugares. Os indígenas forçosamente serão desterrados para outros locais. Muitos já se transferiram para a cidade e perdem sua cultura, seus costumes e sua maneira própria de organizar-se em comunidade. Lamentavelmente, grande número sucumbe aos vícios dos brancos.
IHU On-Line - O senhor leu a carta do Grupo de Emaús à presidente Dilma? Como vê as manifestações do grupo de teólogos acerca dos impactos dos megaprojetos, sem fazer referência direta às hidrelétricas?

Dom Erwin Kräutler - A carta entregue pelo Grupo Emaús à Presidente Dilma em audiência que ela concedeu a uma delegação dessa entidade no dia 26 de novembro de 2014 tem o título “O Brasil que queremos”. Vejo na escolha do título certa analogia com o documento final da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável– Rio + 20 (20 a 22 de junho de 2012) “O futuro que queremos”. É um documento chocho e insosso, sem consequências palpáveis. Assim também a carta dos teólogos não faz nenhuma reivindicação pontualizada, nenhuma exigência concreta, nenhuma denúncia circunstanciada, fornecendo nomes e endereços. E destarte, logicamente também não fala das consequências perniciosas de Belo Monte e de muitos outros projetos do Programa de Aceleração do Crescimento - PAC. Não empresta sua voz — como se esperaria de teólogos — às famílias arrancadas de seus lares e suas terras e de tantos outros que foram atingidos por barragens ao longo das décadas passadas. Não reclama nada. Só pede uma “reavaliação”.
Da mesma maneira, só fala genericamente da defesa dos direitos indígenas e quilombolas. Não emprega uma única vez a palavra “demarcação”. Dilma impôs no ano de 2013 a paralisação dos procedimentos demarcatórios de terras indígenas. Assim, demonstrando claramente que as atenções de seu governo estão voltadas aos setores da economia e da política ligados ao latifúndio, ao agronegócio, às empreiteiras, mineradoras e empresas de energia hidráulica, que visam exclusivamente à exploração da natureza em terras tradicionalmente ocupadas por povos indígenas. O descumprimento dos parâmetros constitucionais da Carta Magna de 1988 que previu a demarcação de todas as áreas indígenas num prazo de cinco anos é o lúgubre pano de fundo de todos os conflitos sangrentos que causaram centenas de mortes de indígenas em todos os quadrantes do país. Por que os teólogos não aproveitaram a audiência para unir-se aos povos indígenas no grito uníssono de “Demarcação já!”?
Ao assumir o segundo mandato, a presidente da República chegou a propor um diálogo com a sociedade. A pergunta que me faço é se ela realmente está disposta a ouvir, a discutir, a receber críticas, a conversar, por exemplo, com os povos indígenas ou os atingidos por barragens. Em relação a Belo Monte, o seu predecessor na Presidência me falou, em 22 de julho de 2009, que o diálogo tem que continuar. Mas foi Lula mesmo que o abortou. Para Dilma, Belo Montenunca foi assunto de pauta com movimentos populares ou a população diretamente impactada. Dilma se negou a qualquer diálogo sobre este tema. Pelo contrário, mandou recado a quem fizesse oposição à menina de seus olhos:Belo Monte é irreversível!
E como vimos há poucos dias, Dilma não se deixou impressionar nem um pouco pelas manifestações contrárias à nomeação de Kátia Abreu, implementadas por amplos setores da sociedade brasileira. Na entrevista que Kátia Abreudeu à Folha de São Paulo no dia 5 de janeiro, dia de sua posse como ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, ficou bem claro qual é a posição do governo em relação aos povos indígenas. O governo continua a defender o latifúndio e os privilégios que tem concedido ao agronegócio contra os povos indígenas. Povos que, na opinião grotesca da ministra, “saíram da floresta e passaram a descer nas áreas de produção”. Não é um fato altamente indicativo que a presidente Dilma, nos dois discursos do dia de sua posse, não fez uma única referência sequer aospovos indígenas?!
IHU On-Line - Como o senhor avalia a reeleição da presidente Dilma e as declarações logo após as eleições, de que a hidrelétrica é uma das prioridades do governo?
Dom Erwin Kräutler - Eu não esperava outra coisa. Se durante o primeiro mandato e ao longo da campanha o discurso foi esse, como ela iria mudar depois de conferir os votos e se dar conta de sua reeleição? O rolo compressor continuará a passar por cima de todos nós aqui no Xingu e em breve por cima dos povos do Tapajós e de outros rios da Amazônia. As reivindicações da população não contam. Nem o Plano Básico Ambiental é cumprido. É alterado, sempre que assim convier ao governo.
IHU On-Line - Como compreender que pessoas ligadas às CEBs e à Igreja, hoje presentes no governo, defendem a construção de hidrelétricas, sem considerar os impactos às comunidades indígenas, às comunidades tradicionais e à própria população de Altamira, por exemplo?
Dom Erwin Kräutler - Respondo com um comentário de um padre gaúcho a respeito da carta de repúdio do Conselho Indigenista Missionário - Cimi à entrevista de Kátia Abreu. Partilho do mesmo sentimento do padre: “Sou padre diocesano há 50 anos (...). Desde meus últimos anos de Teologia e até hoje sempre me comprometi na defesa dos direitos dos mais pobres, entre os quais indígenas e sem terra. Conseguimos avançar pouco e agora o freio é escancarado com a prepotente Kátia Abreu. Engajei-me na construção do PT imaginando que o poder em mãos de lideranças, boa parte formada na visão da Teologia e Pastoral populares, constituiriam um ‘outro Brasil possível’, mas caíram no ralo comum. Nos traíram!”.
IHU On-Line - O senhor conhece Thais Santi, a nova procuradora do MP de Altamira? Quais são os desafios dela diante das dificuldades em torno de Belo Monte, considerando que já passaram outros procuradores por Altamira — a exemplo de Felício Pontes Jr. —, mas que pouco conseguiu avançar por conta da estrutura judiciária?
Dom Erwin Kräutler - Conheço, sim, a Thais Santi. Como também o Felício Pontes. A minha amizade com Felício já é de muitos anos. Sempre estive ligado a ele na defesa dos direitos dos povos do Xingu. E ainda de modo especial após o assassinato da Irmã Dorothy, que no próximo dia 12 de fevereiro completará dez anos.
A Thaís está em Altamira desde 2012. Muito a estimo e admiro a sua coragem. É uma verdadeira dádiva paraAltamira. Posso dizê-lo em relação a seu profissionalismo e sua competência, à sua determinação na busca de solução para as mais diferentes questões que é solicitada a dirimir. Além disso, é de uma personalidade cativante. Sabe ouvir o povo simples. Faço votos de que não saia tão cedo de Altamira. É impressionante e esclarecedora a entrevista que Thaís deu a Eliane Brum: A anatomia de um etnocídio.
Tive, aliás, a felicidade de conhecer várias jovens procuradoras que passaram por Altamira e lamentavelmente ficaram apenas pouco tempo. Lembro-me também com gratidão do procurador Marco Antônio, que voltou para o seu estado de origem, o Mato Grosso do Sul. Em conversas descontraídas descobri que todos sonharam com um Brasil diferente, um Brasil bem “legal” (no mais estrito sentido da palavra!) e queriam dar a sua contribuição, lutando pelos direitos e a dignidade dos povos do Xingu, indígenas, migrantes, ribeirinhos e habitantes das cidades e vilas ao longo deste rio majestoso e maravilhoso, condenado a morrer. Esbarraram quase sempre em estruturas judiciárias adversas que obedecem a outros interesses.
IHU On-Line – Nesse começo de 2015, que mensagem é possível transmitir àqueles que vivem as consequências de Belo Monte?
Dom Erwin Kräutler - Na passagem de ano escrevi uma meditação que quero deixar aqui como palavra final de nossa entrevista:
31 de dezembro, 24:00 horas:
É 1º de janeiro, 0,00 hora.
O ano velho e o novo se tocam.
O que passou, não volta mais.
O futuro está por vir.
O “agora” é agora!
Mas, enquanto falo “agora”,
Já se foi.
Tudo flui, voa, some, morre.
E acorda, floreia, revive, brilha de novo.
A noite se torna dia,
A luz dissipa a escuridão.
A vida vence a morte.
Nosso caminho nos leva
Até o último „agora“:
Quando vida e morte
São como 24 e 0:00 horas
E o tempo esvanece na eternidade.
Até lá, Cada momento é um presente,
Mas também um convite para amar.

Fonte: http://www.brasildefato.com.br/node/31027

16/01/2015

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

INDÍGENAS E A MEMÓRIA ESCOLAR

Quando pensamos em um português, espanhol, inglês do século XVI e o comparamos com um europeu de mesma nacionalidade dos dias de hoje, não nos assustamos ao ver como as culturas desses países mudaram, mas a identidade da nação se manteve. Mas, se fizermos o mesmo exercício com nações indígenas do século XVI e as de hoje, não aceitamos indígenas que utilizam internet, veem televisão ou frequentam universidades.

Esperamos que, para serem  indígena, ainda vivam 500 anos atrás, como se a cultura indígena fosse pura e imutável. É claro que existem povos que não tiveram sequer contato com o restante do Brasil, mas também existem indígenas que, mesmo mantendo suas identidades como tal, não vivem em ocas, tribos ou vivem da caça e da coleta.

Neste sentido vejamos o texto do Moutinho: ao contrário do direcionamento incontável de análise sobre o negro, desde o início do século – problematizando e enfocando os horrores da escravidão –, o índio tem ocupado um espaço microscópio em nossa historiografia.

Esse lugar infinitamente pequeno e secundário que foi dedicado à história indígena tem legado esses povos ao esquecimento, ou lembrados subitamente em flashes sensacionalistas. O índio tem uma história; uma história indubitavelmente plural. É necessário [...] desconstruir abordagens simplistas que eurocentrizaram as análises, configurando o indígena num ambiente social exótico e primitivo.

Essa ressignificação histórica é também um ressignificar de consciência. Para os indígenas, é um olhar-se sobre si, reconstruindo suas identidades que, por tanto tempo foram mascaradas e ou desconfiguradas por uma miopia historiográfica. As representações criadas para o indígena brasileiro ainda são projetadas e extrapoladas no infinito, passando a justificar tanto o presente quanto o futuro.


[...] Se ampliarmos o poder da nossa lente, perceberemos que, nos níveis escolares de primeiro e segundo graus, as representações construídas para o indígena brasileiro são ainda mais distorcidas e comprometedoras. Infelizmente o livro didático ainda é o filho bastardo das discussões e produções acadêmicas. O pouco que se tem avançado nessa área nas universidades ainda não atingiu em cheio os manuais didáticos. 

[...] Esse eixo temático deve, em regime de urgência, ser ampliado e apresentado de forma mais consistente no livro didático, articulando-se então a outros temas. Para isso faz-se necessária uma desconstrução, principalmente no tocante a periodizações e tematizações. Geralmente, por ordem didática, ou até mesmo por determinações mercadológicas, os capítulos são estratificados (política, economia, sociedade), limitando os aspectos culturais a subitens, quando não determinados por estruturas econômicas.


Outrossim, o conceito de sincretismo deve ser revisto. Afastando a possibilidade de folclorização da cultura indígena, que ainda vem sendo tratada como elemento estático na História do Brasil. Esse sincretismo deverá ser percebido num contexto de circularidades e inter-relações com outras culturas. Reduzir a contribuição da cultura indígena a sua “herança”(vocabulário, comidas...), tal como vemos nos livros didáticos, é compreender a sua história.

Vale ressaltar que não se trata de decompor os discursos, tomando-lhes de assalto, num estado genérico de histeria revanchista. [...] Portanto, reescrevera História Indígena é, antes de tudo, modificar os discursos que durante tanto tempo representaram os nossos nativos com os mais nocivos e pejorativos adjetivos. É apontar definitivamente, perspectivas mais seguras de compreensão do universo histórico e cultural do índio.  
                                                                                                                                                                            MOUTINHO, Augusto. O índio brasileiro ainda um vazio na história. In: FERREIRA, João Paulo Hidalgo Mesquita& 

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

ALÁFIA, PARA ALÉM DA “ÁFRICA TEÓRICA”


Uma banda que carrega em sua música influências e referências políticas, sociais e religiosas, fazendo um enfrentamento ao racismo e trazendo um continente ancestral ao palco
Por Igor Carvalho,Da Revista Fórum
Eles poderiam ser personagens centrais da profecia do poeta Walner Danziger, no ótimo e importante poema “Eles não usam black power”, que usa de ironia ao apresentar a figura estigmatizada do negro como “macaco” para narrar a tomada de poder pelo povo de Zumbi. Quando pisam no palco e principiam a bater uma palma da mão na outra, ritmando o início de sua revolução particular, a banda Aláfia “borra de sangue a toalha de linho em desalinho”, como escreveu Danziger. No palco, o grupo está acompanhado pelos seus ancestrais, que ajudam a formar o ideal “alafiano”, sempre se esquivando do que chamam de “África teórica”, ou o folclore que torna a cultura africana um produto exótico, a ser consumido. “É uma apropriação sem modismo”, explica Alysson Bruno, um dos integrantes da trupe.
Em cada apresentação, também estão presentes os Douglas e Amarildos, as vítimas dos “tiros acidentais” e do “genocídio da população negra no Brasil”. “Essas últimas notícias de 30 mil negros assassinados, esses levantamentos, isso é igual ao Carandiru, 111 mortos. Foi muito mais. Mas, muito maior que o número é o medo, o terror, o temor que a gente tem da polícia. Isso tá no nosso dia a dia”, afirma Eduardo Brechó, que compõe o trio de vocais do Aláfia com a “libélula de Ébano” Xênia França e o teatral Jairo Pereira. Ao todo, são dez músicos: Pipo Pegoraro (guitarra), Alysson Bruno (percussão), Gil Duarte (trombone), Gabriel Catanzaro (baixo), Henrique Gomide (piano), Lucas Cirillo (gaita) e Filipe Vedolim (bateria), além dos vocalistas.
A banda existe há três anos, porém, o primeiro disco, Aláfia(YB Music) veio recentemente. O lançamento foi no Sesc Pompeia, em São Paulo, em 10 de setembro de 2013. Os ingressos se esgotaram e muita gente ficou do lado de fora, sem conseguir ver a apresentação. O sucesso se ampara no trabalho realizado pelo grupo, que antes de lançar o disco já havia se apresentado em diversos lugares, conquistando ouvintes que aguardavam o resultado daquela “conspiração”.
No estatuto do grupo, desde o princípio, ficaram claros os pilares ideológicos que norteariam sua atuação, como a preocupação com os elementos africanos. “A gente gosta de algo do tipo: ‘Tá vendo esse congo de ouro que tá nesse pancadão’. Mas o congo de ouro não apareceu no Google, ele vem da nossa vivência. A luta racial carece da afirmação racial, mas para longe dessa África teórica, sem esse olhar idealizado”, afirma Brechó. E o zelo com questões sociais passa diretamente pela discussão a respeito da violência policial, como explica um dos vocalistas e fundadores da banda, Brechó. “A gente é a favor da desmilitarização, mas não é só falar que a gente é a favor disso. A gente é contra a Polícia Militar, certo? Assim como eles são contra a gente, naturalmente. Quando eu era adolescente, jovem, a polícia era contra a gente sem eu nem saber qual era a situação.”
A religião, assim como o preconceito, também são temáticas constantes da obra do Aláfia. “Nosso combate não é à intolerância religiosa, é ao racismo. Porque o que demoniza a nossa religião é o racismo. É diferente se houver um sacrifício, como Jesus foi sacrificado, feito pela ‘religião branca’, um modo meio escroto de falar, mas que remete aos termos de poder que mantêm essa religião no Brasil”, sentencia Jairo Pereira.
A fusão dos elementos históricos, religiosos, políticos e sociais com a musicalidade que respeita a tradição da música negra, unindo os batuques dos tambores do candomblé, o jazz, o funk, o hip-hop e o soul criou uma estética musical que ainda fará muito crítico e articulista se perder. A direção do show é de Estrela D’Alva, e quem sempre aparece nos espetáculos são os poetas Akins Kinte e Lews Barbosa, que, ao lado de Lurdez da Luz, participam do disco.
Jairo Pereira assina a erotizada “Chicabum”. As outras nove músicas do disco são de autoria de Eduardo Brechó, sozinho ou com a participação de outros, entre elas, “Mulher da costa”, que abre o CD. Na música, a mulher da costa, que “vem do Gana, não se engana” e “diverge de [Pierre] Verger” (etnólogo francês que estudou a África em diversos aspectos), pergunta: “Quem pratica a África?”. O Aláfia usa a canção também para questionar a aplicação da Lei no 10.639 no Brasil, que trata do ensino da cultura africana nas escolas. Confira a entrevista abaixo.
Fórum – De onde vocês são?
Eduardo Brechó – Aqui tem migrante pra caramba. Sou de Ribeirão Preto, o Jairo é de Suzano, a Xênia é baiana, o Pipo é do Rio Pequeno [bairro da zona oeste de São Paulo], o Gil é cearense, o Cirillo é da zona sul, Gabiru é da Lapa [zona oeste paulistana] e o Fernando é de São Miguel [zona leste de São Paulo], o Alysson também é da zona sul. Tudo migrante, ninguém é do centro.
Fórum – E essa conexão com a periferia e os movimentos culturais e sociais de São Paulo, vem de onde?
Eduardo Brechó – Acho que tem a ver com a formação. Não somos exatamente de uma quebrada específica, mas estamos ligados na cultura das quebradas, que colabora para a construção da identidade desse indivíduo que é o Aláfia.
Fórum – O que significa Aláfia?
Eduardo Brechó – Significa caminhos abertos.
Alysson Bruno – A gente pode dizer, usando o nome de uma outra música nossa, que é quando o destino está em punga a favor do desejo. Isso é Aláfia, uma palavra de confirmação, significa “vai dar certo”. Plenitude.
Fórum – A banda tem três anos, e o disco foi lançado há dois meses. Muita gente já se perdeu ou está se perdendo tentando identificar o que é o som do Aláfia?
–  Sim! [Coro]

Eduardo Brechó – Identificar todo mundo identifica, mas não classificam. Identificação é a coisa mais fácil no som do Aláfia, porque temos referências inúmeras. Então, as pessoas identificam coisas diferentes ali, é um triunfo pra gente.
Fórum – Mas vocês tentam classificar?
Pipo Pegoraro – Acho que não. Não precisa, né? A gente não tenta classificar porque isso acaba reduzindo. As pessoas perguntam qual é o gênero, mas você tenta se explicar e dar uma definição, e depois ficamos pensando: “não tem nada a ver o que eu falei”. Ou então faltou isso ou aquilo.
Jairo Pereira – A definição mais legal é de uma reportagem numa rádio inglesa e o cara falou “funk candomblé”. No fim das contas, tem reggae, afrobeat, funk, soul. Tem tudo, tem regional…
Fórum – E novas tecnologias ajudaram também a difundir o nome da Aláfia nas redes.
Eduardo Brechó – Sim. O primeiro show do Aláfia no “Bar B” [10 de novembro de 2011] se deu por isso. A gente nem existia. Não existia um show, não éramos uma banda que se apresentava. A gente divulgou pra caramba esse show nas redes sociais. Sabiam que a gente estava conspirando e que queríamos algo. Divulgamos em um mês, e o show foi cheio. A partir daquilo, a gente continua trampando nas redes, funcionou. Aquele show virou uma temporada, e nessa temporada veio o ímpeto de gravar um disco. No mesmo ano em que a gente se uniu, já partimos para gravar o disco.
Fórum – E vocês já tinham as canções?
Eduardo Brechó – Já. Quer dizer, mais ou menos. A gente trampava em algumas dessas reuniões que fazíamos no início, às quartas-feiras, e aí fomos fazendo outras e formando o repertório do Aláfia. Já tinha um apanhado de canções, fomos nos entendendo como banda, né? O caminho fez a gente também. Naquele momento, fomos fazendo música para interpretar nossa sonoridade. Muitas canções que a gente acreditava na época não entraram para o repertório porque a sonoridade da banda passou a ser outra, e começamos a pensar nas músicas a partir dessa sonoridade, e não ao contrário. A música tem que servir para o que é o Aláfia ou para o que o Aláfia está atingindo. Foi assim que a gente montou o repertório.
Fórum – Vocês já estão identificando o público?
Eduardo Brechó – Estava conversando isso com o Pipo ontem. Você ouviu na casa do Sérgio Vaz e isso é emblemático. Existe um movimento de consumo na quebrada hoje que está buscando novos ares também, entendeu? Além disso, a gente consegue dialogar legal com essa galera que está olhando para a ancestralidade e para as lutas raciais, porque olhamos para isso também. Isso está no estatuto do Aláfia desde que foi fundado. Mas qual medida isso ia tomar, com quem a gente ia se comunicar, nós não sabíamos exatamente.
O Aláfia se vale muito disso, e a gente retribui à nossa medida. Está formando um circuito de cooperação. Se você pegar, por exemplo, o som do Ba Kimbuta tem a ver com a gente também. E não é uma coisa que a gente trampou junto, mas o laboratório é a rua, e as ideias estão ali. Há várias expressões de periferia, e se você frequenta sarau, vê a molecada de 17 ou 16 anos fazendo rap do jeito deles, vê o jeito que soltam o refrão e falam coisas diferentes, se colocar um tambor, isso influencia. É uma expressão do nosso tempo também, tem a ver com a contemporaneidade.
Xênia França – Mas isso desde sempre também. Desde o primeiro show no “Bar B”, as temporadas são sempre cheias, e com esse público que ele tá falando, né? A galera que se identifica com essas questões raciais. Ontem fizemos um show que foi o maior até agora, lá no Anhangabaú, e as pessoas estavam lá, saíram de casa para nos ver. Tinha gente que nunca tinha ouvido falar da gente, mas tinha uma galera que só foi lá ver a gente. Tinha gente cantando nossas músicas.
Fórum – Vocês falaram da ancestralidade, mas mesmo com essa condição de não se classificar, uma coisa é certa: o elemento negro e africano está ali no palco. O quanto há de influência da música negra no som que o Aláfia faz?
Eduardo Brechó – Cara, em termos de influência, pessoalmente acho que cada um traz a sua. A África é só teórica, está aí na sua camiseta. Então, cada um vai trazer a sua África, porque a gente não acredita nela nesse sentido. Tipo, o que é a África pra você? O que é o idealismo em relação a isso? Um folclore, né? Tem um folclore envolvido, e a gente sabe que a galera está mais envolvida com ele. E o mundo é muito grande. Seis mil anos que a gente cita não é nada. Como diria o Rei do Camarote, é de 6 mil anos ao infinito [risos]. Pensamos profundamente, metafisicamente e sem medo essas questões raciais. Datamos a nossa ancestralidade à medida que ela aparece, não força a barra.
Xênia França – É da maneira que se vivencia.
Eduardo Brechó – É isso. A gente gosta de algo do tipo: “Tá vendo esse congo de ouro que tá nesse pancadão”. Mas o congo de ouro não apareceu no Google, ele vem da nossa vivência. A luta racial carece da afirmação racial, mas para longe dessa África teórica, sem esse olhar idealizado. Muitos irmãos nossos, quando chegam na África, se surpreendem, são tratados até como brancos lá, por carregar essa África teórica. Tomamos muito cuidado com esse folclore. É luta, não é africanismo superficial.
Alysson Bruno – É uma apropriação sem modismo. Cada elemento aqui tem um fundamento, um motivo para estar na nossa música. Em cada frase, em cada rítmica, há uma coerência, não é só ser pretinho com cabelo para cima.
Fórum – No show que eu vi no Rio Verde, o Jairo Pereira falou muito sobre a Lei no 10.639, antes da música “Mulher da costa”. A música em algum momento foi pensada para a questão da lei? E qual a importância dessa lei, que não é aplicada corretamente no Brasil?
Eduardo Brechó – Compus a música quando trabalhava de educador no Museu Afro Brasil. É o seguinte, desde que a lei foi criada há 10 anos, a gente trabalha para que seja colocada em questão. Quando a luta começou, pela aplicação da lei, estávamos envolvidos. Fomos nos entendendo e sabemos que somos a favor da aplicação da lei. A gente trata de negritude na oficina que dou aqui [CEU Paz] e tenta aplicar a lei. Quem colocou isso de Lei 10.639 no meio da letra foi o Jairo.
Jairo Pereira – Fui eu, porque foi exatamente isso, quem pratica a África. A importância que tem é sobre a compreensão da nossa base para que a gente possa ascender em relação a nossa identidade, a nossa própria busca. É uma ideologia básica que tenho: é necessário mastigar informação, principalmente para as pessoas que não se alimentaram dela. E que essa informação, que foi demonizada, possa ser transformada e mostrar para as pessoas que o demonizador está errado. Isso é um trabalho de base. A Lei no 10.639 zela por isso. Mas, infelizmente, quando dão uma aula de jongo, na escola escutamos que “isso é coisa do diabo e a gente não pode ensinar isso”. Temos a nossa cultura totalmente transformada em algo maléfico há anos, e a nossa luta é dizer carinhosamente para essas pessoas: ‘Ei, presta atenção, isso te trouxe até aqui’. E temos um sistema que exige pra caralho, entendeu?
Nosso combate não é à intolerância religiosa, é ao racismo. Porque o que demoniza a nossa religião é o racismo. É diferente se houver um sacrifício, como Jesus foi sacrificado, feito pela “religião branca”, um modo meio escroto de falar, mas que remete aos termos de poder que mantêm essa religião no Brasil. Tem um exemplo de Diadema, quando fiz um trampo musicando poemas afro-brasileiros, nós montamos um livro no EJA [Educação de Jovens e Adultos] para passar esses poemas para a alfabetização. Alfabetização de gente de 50 anos, que queria estar vendo a Carminha [personagem da novela “Avenida Brasil”] em casa. Chegava lá e falava “Os tambores da noite estão te chamando”, do Max Viana, aí a pessoa falava que não podia falar a palavra “tambores” porque é do diabo. E todo mundo já comprava a ideia. Em uma sala de 30 alunos, 20 saíam quando ouviam a palavra “tambor”. Então, se a gente deixar isso desse jeito, vai ter que nascer um novo dicionário. O barato não é laico, não existe, o Brasil é religioso e o racismo está inserido nesse tipo de detalhe. Isso atrapalha a alfabetização. As características são totalmente negadas a todo tempo. Por exemplo, você vê uma mulher preta de turbante na cabeça e as pessoas ainda olham de maneira estranha e reprovam com o olhar. Ou quando não transformam isso em uma coisa exótica.
Fórum – Assim como aconteceu com Mano Brown, Emicida, e tantos outros que se propuseram a discutir a sociedade em que vivemos, vocês estão preparados para debater além da música?
Eduardo Brechó – Isso vai acontecer, sabemos. Mas não existe esse negócio de “música”. O nosso fundamento não serve para a estética política, se você não consegue definir a nossa estética, isso já vai te provocar. Isso carrega nossa postura política naturalmente. Não é um barato que é pensado, que a gente vai chegar ao lugar X e atingir não sei quem. Como acontece com Pedro Paulo [Mano Brown], são questionamentos que acontecem da gente pra gente. Não é o poder que vai vir. Isso seria um ponto muito positivo.
Jairo Pereira – Uma parada que costumo falar é a “arte de embate”. Já está inserida na arte a consciência política. Essa conexão que você tem com o mundo e com as pessoas. Essa arte de maneira transformadora já traz isso, já está na essência. Qualquer coisa que vier falar, a gente vai dar nosso posicionamento e o nosso ponto de vista em relação a isso. Não tenho a preocupação de quem eu possa incomodar. Se posso incomodar a polícia, se posso incomodar o Danilo Gentili, ou quem for. Porque quem estiver jogando contra, não está jogando a favor.
Fórum – Quero falar com vocês sobre a violência policial. Qual a postura de vocês em relação a esses tiros “acidentais”?
Jairo Pereira – Fiz uma performance na Oscar Freire que se chamava “Os Mendonças”, junto com a artista Juliana Notari, e a intenção era fazer essa denúncia do genocídio da população negra. Não adianta falar que são só os jovens. Os jovens também, mas é a população negra. Quando você fala dos jovens, você só especifica.
Fui pra lá exatamente pra fazer esses mascarados representando esse poder de opressão que já vem da família dos bandeirantes. Os Mendonças são essas famílias dos bandeirantes que ainda representam o poder. E que também é a família de André Furtado de Mendonça, que é o cara que degolou Zumbi. Foi pra dizer que isso ainda continua, a gente ainda tem os Mendonças degolando a gente. Fui pra Oscar Freire, na rua mais luxuosa do mundo. Era uma performance artística e estava na cara que era uma performance artística, pessoas com câmera filmando. Estava revendo e tem um take em que passo de olhos vendados ao lado de uma mulher, e o que a mulher faz? Ela gruda na bolsa. Fui levar o lixo pra eles, porque é o lixo que eles fazem e jogam na periferia, só jogam nos cantos. A gente foi jogar na porta deles. Sabe o que aconteceu? Eles não tinham coragem de olhar. Isso está no vídeo. As pessoas nem olhavam para os lados. E, no período que a gente esteve lá, a polícia passava toda hora e não olhava na minha cara. Isso está acontecendo, e todo mundo sabe que está acontecendo, mas são essas pessoas formadoras de opinião, que mantêm o poder, que não querem dar a cara pra isso. Essa força tem que se constituir no nosso povo, a gente tem que emergir disso. Porque isso está matando a gente.
Xênia França – Há muito tempo.
Eduardo Brechó – E não é só superficialmente falando, não. A gente é a favor da desmilitarização, mas não é só falar que é a favor disso. A gente é contra a Polícia Militar, certo? Assim como eles são contra a gente, naturalmente. E não é porque a gente começou com o Aláfia. Quando eu era adolescente, jovem, a polícia era contra a gente sem eu nem saber qual era a situação. No dia da estreia do Aláfia no Sesc Pompeia, tomei um enquadro, fui esculachado. Então, isso é latente, está acontecendo. Acontece no nosso dia a dia, e a gente não gosta. Simplesmente assim.
Não dá pra você ser feminista e casar com um machista. Não dá pra você ser negro e casar com um racista sendo consciente dessa situação. É o que acontece. Não vamos nos casar com um sistema que nos rebaixa e nos oprime. Somos conscientes disso e sabemos que a gente tem que espalhar essa informação. Essas últimas notícias de 30 mil negros assassinados, esses levantamentos, isso é igual ao Carandiru, 111 mortos. Foi muito mais. Mas muito maior que o número é o medo, o terror, o temor que a gente tem da polícia. Isso tá no nosso dia a dia.
Jairo Pereira – É exatamente por isso que precisamos da Lei no 10.639, pois ela nos deixará contar a nossa própria história, e não deixa só quem faz esses levantamentos de 30 mil contar.
Fórum – Vocês colocaram o funk no show. Queria saber de que forma vocês veem o preconceito com o funk e o melody no Pará, e tantos outros que surgem na periferia do Brasil.
Eduardo Brechó – A gente usa aguerê e congo de ouro, entendeu? Usa um monte de coisa que são ritmos que conhecemos, isso vem lá de trás, não inventamos nada, é ancestral. O funk também é essa união de elementos. Você vai no pancadão e dança música instrumental. Quanto tempo que eu não via gente dançar música instrumental no baile? O cara fica lá “tum tchatcha” [ritmo de funk] e os moleques ficam dançando, não precisa estar falando alguma coisa. Muitos dizem que a música instrumental no Brasil não faz sucesso, mas é porque não frequentam pancadão. Então, a música comunica dessa maneira ancestral. Qual era a pergunta? [risos].
Fórum – Preconceito com músicas das periferias do Brasil.
Eduardo Brechó – No lançamento da campanha “Eu pareço suspeito?”, tinha um workshop falando sobre isso. Eu e o Akins [Kintê] levamos pra Fundação Casa falando da perseguição do gênero do samba, e falando para os moleques que eram envolvidos com o funk como quem estava sendo perseguido não era o gênero, era o pessoal, é o povo, é o negro. Porque o roqueiro branco falava de suruba e usar droga e continua na garagem fazendo rock.
Alysson Bruno – Vira rei.
Eduardo Brechó – O que está sendo perseguido é o povo, e isso não é de hoje. Isso é do samba, foi com o rap, é com o forró também. Porque esse negócio de etiquetar como “brega”…
Fórum – Vou perguntar sobre uma música específica, sei que teve participação de mais gente. A música “Ela é favela”. Podemos falar dela?
Eduardo Brechó – “Ela é favela” é o seguinte: Fiz o refrão no final de um relacionamento. A outra pessoa com quem eu estava não era favela, e o fato de a nova moça ser fez toda a diferença. Música de amor, né? Na época, fiz o refrão e a primeira parte, e chamei a Lurdez [da Luz] para fazer a segunda parte.
Xênia França – Ela ficava girando, não tinha forma. E, um dia, a gente estava junto, na casa da Vila Madalena onde começamos o processo, de noite já. Aí rolou o refrão, e lá da cozinha, no café, fiz o “larárárárá” e rolou.
Eduardo Brechó – Aí a Xênia fez a parte final dessa melodia, que é a parte que ela canta. Isso é importante porque funda o Aláfia. Foi a primeira música que a gente gravou, a primeira música que lançou. Mudamos essa primeira música algumas vezes.
Fórum – Eu lia a letra de “Ela é favela” e jurava que você estava falando da favela. Vi a pipa subindo na favela.
Gabriel Catanzaro – Eu também achava na primeira vez que ouvi [risos]


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29/01/2014