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domingo, 12 de maio de 2013

OS CAMINHOS DA ESQUERDA NA CULTURA



A jornalista Vera Gertel contextualiza a efervescência do teatro brasileiro antes e depois do golpe de 1964, fala das contradições políticas de Getúlio, e descreve porque optou em enfrentar a ditadura.
 
Eduardo Campos Lima, de São Paulo (SP)

 
Eles Não Usam Black-tie, com Lélia Abramo, em montagem de 1958
Foto: Arquivo Vera Gertel
O livro Um gosto amargo de bala, autobiografia da atriz, jornalista e militante Vera Gertel, narra uma parte importante da história da esquerda brasileira entre os anos 1930 e 1970. Filha de militantes do Partido Comunista, desde a juventude Vera atuou na esfera cultural, fundando com os companheiros do Partido Comunista Brasileiro (PCB) Gianfrancesco Guarnieri e Oduvaldo Vianna Filho – com quem foi casada – o Teatro Paulista do Estudante (TPE), ainda nos anos 1950.

Capa do livro de Vera Gertel - Foto: Divulgação
 
Trabalhou como atriz no Teatro de Arena de São Paulo, com o qual o TPE se fundiu, e juntou-se ao Centro Popular de Cultura (CPC), iniciativa de radicalização política impulsionada por artistas e intelectuais comunistas, no começo dos anos de 1960. Após o golpe de 1964, aproximou-se da luta armada, dando apoio à ação de antigos companheiros como Joaquim Câmara Ferreira, seu padrinho, e Carlos Marighella. Nessa fase, iniciou sua carreira de jornalista e deixou de atuar nos palcos.

Em entrevista ao Brasil de Fato, Vera Gertel faz uma análise dos caminhos da esquerda, na cultura e na política, antes e depois do golpe de 1964.

Brasil de Fato – A Ditadura Vargas inspira, muitas vezes, visões ambíguas na esquerda, já que foi um período em que houve alguns avanços importantes na área trabalhista e, ao mesmo tempo, um forte anticomunismo. Que balanço você faz da relação do PCB com Getúlio Vargas?

Vera Gertel – Não é uma pergunta fácil de responder. Primeiro, porque eu era muito menina, sequer militava. Segundo, só a distância no tempo nos permite uma análise política mais condizente com a realidade vivida na época.
Getúlio se inspirava no fascista italiano Mussolini para implantar um nacional socialismo de direita e, portanto, nada democrático, com controle sobre sindicatos pelegos. Ao mesmo tempo, os comunistas exigiam, sob a sigla da Aliança Nacional Libertadora (ANL), um programa bem mais amplo, como anulação das dívidas das nações, nacionalização das empresas públicas, distribuição de terras latifundiárias para os camponeses e proteção ao pequeno e médio proprietário. A ANL era uma frente ampla e para que tudo isso existisse seria necessário um grande apoio popular, do qual Getúlio tinha medo, por receio ao comunismo.
Do meu ponto de vista, que não sou historiadora, ele acabou metendo os comunistas na cadeia para poder seguir sozinho sua linha de caudilho. Afinal, sempre foi um deles. Donde a relação de Getúlio com o PCB ter sido sempre ambígua. De um lado, Getúlio ditador, pondo partidos e líderes populares na cadeia. De outro, os comunistas, com uma orientação dita internacionalista mas, que na verdade, seguia diretrizes de Moscou. E em outros momentos, em que Getúlio não só precisava como merecia o apoio dos comunistas, estes, por erro histórico, apoiaram sua renúncia, que resultou em seu suicídio.

Brasil de Fato – Desde muito jovem, sua militância foi ligada ao comitê cultural do PCB. Quais eram as perspectivas de trabalho dos comunistas para a área da cultura, na década de 1950? Havia uma linha clara?

Vera Gertel – Não. O PCB não tinha uma linha clara para a cultura. Acontecia de haver comunistas dentro da cultura e das artes brasileiras. E, portanto, uma visão mais revolucionária. Foi o que aconteceu com nossa célula cultural, da qual fazíamos parte eu, Oduvaldo Vianna Filho e Gianfrancesco Guarnieri, que passou a ter a atenção do Partido a partir do momento em que fomos atuar no teatro. Não chegou a ser uma diretriz do Partido, mas era um campo em que nós, comunistas, atuamos.

Brasil de Fato – O que liam e debatiam os jovens artistas e militantes do Teatro Paulista do Estudante, em um tempo de influxo, no Brasil, de teóricos marxistas fundamentais?

Vera Gertel – O que nós líamos e debatíamos naquele processo de aprendizado sobre como atuar politicamente dentro do teatro era uma mistura impressionante. De Marx a Lukács, Brecht e Piscator, todos os mestres do chamado teatro atuante e popular. O teatro feito para pensar, sem perder de vista seu entretenimento. Quer dizer, ninguém vai ao teatro só para pensar. É preciso fazer o espectador pensar enquanto ele se delicia com o que se passa num palco ou numa arena.
Jean Paul Sartre também foi um grande complicador, porque sua filosofia, em termos grosseiros, privilegiava o indivíduo mais que o coletivo. Mas ao mesmo tempo ele era um tremendo intelectual atuante, que comparecia aos protestos e desfilava pelas ruas com estudantes, etc.
 
 
Eles Não Usam Black-tie, com Lélia Abramo, em montagem de 1958
Foto: Arquivo Vera Gertel
  
Brasil de Fato – A fusão com o Teatro de Arena de São Paulo determinou que tipo de transformações no trabalho e nas perspectivas do TPE? 

Vera Gertel – De início, a fusão não implicou em nada que tivesse a ver com nossa visão de teatro político e popular. Fazíamos peças, comédias, bem aburguesadas, apenas para distrair o público e fazer render uma bilheteria da qual sobrevivíamos, ganhando um salário mínimo. Isso na década de 1950. O que não impedia que autores como Guarnieri e Vianna começassem a escrever peças mais condizentes com o que pensavam que devia ser denunciado. Assim, com a montagem de Eles não usam black-tie, do Guarnieri, em que o protagonista é um fura-greve que mora na favela, pela primeira vez no teatro brasileiro estávamos falando do povo e não das elites.
 

 
Brasil de Fato – Como se dava a relação entre os integrantes do Teatro de Arena, do CPC e do MCP? Qual avaliação você faz, hoje, das formulações e da prática dessas três propostas da esquerda cultural do início dos anos 1960?

Vera Gertel – O Teatro de Arena de São Paulo nada teve a ver com a formação dos Centros Populares de Cultura (CPCs), a não ser o fato de alguns de seus membros, como Oduvaldo Vianna Filho e Chico de Assis, serem oriundos do Arena e fundarem no Rio de Janeiro o primeiro CPC, ligado à UNE.
Apesar de o Teatro de Arena viajar por todo o Brasil, levando teatro a seus nichos mais recônditos, a lugares em que sequer tinham visto um circo, Vianna considerava que ele era muito pequeno para ser popular. Restou saber o que fosse verdadeiramente um teatro popular. A fim de atingir um público mais popular, iam fazer teatro nas favelas em cima de um caminhão, mas na verdade não conseguiam conscientizar ninguém.
Mas não havia só teatro nos CPCs, havia o CPC volante, que saiu pelo Brasil fundando outros CPCs estudantis. Havia coleções de livros populares sobre nossos maiores problemas nacionais, cinema politizante e muito mais. Quando veio o golpe de 1964 eu, por exemplo, ensaiava no teatro que a UNE estava construindo, em sua famosa sede da Praia do Flamengo, uma peça do Vianna sobre reforma agrária, chamada Os Azeredo mais os Benevides, sob a direção de Nelson Xavier, outro oriundo do Teatro de Arena de São Paulo.

Brasil de Fato – Você relata que o PCB estabeleceu como reação ao golpe de 1964 a tática de recuo organizado. Os artistas e intelectuais que passaram a se manifestar em termos de claro recuo revisionista, a partir dali, o fizeram motivados pela determinação do Partido?

Vera Gertel – Os comunistas pertencentes ao Partido sempre obedeceram suas ordens. Nunca esta premissa me pareceu tão verdadeira quanto a obediência a um partido. Mas não deixava de haver descontentamento, porque todos os seus militantes acreditaram nas palavras do Comitê Central de que o Jango tinha um esquema militar suficiente para impedir qualquer golpe de Estado. Não tinha. Àquela altura, a direita era mais forte e apoiada pela política de segurança do continente latino-americano exigida pelos EUA, dentro do contexto da Guerra Fria.

Fonte:http://www.brasildefato.com.br/node/12843
08/05/2013

sexta-feira, 3 de maio de 2013

AS RAÍZES DO GOLPE NO BRASIL



Patrícia Benvenuti, da Reportagem
 

Documentário 1964 – Um golpe contra o Brasil resgata acontecimentos e interesses que conduziram à queda de João Goulart.

1964 anos de chumbo no Brasil


Uma série de iniciativas nos últimos anos vem colocando em pauta o período da ditadura civil-militar no Brasil (1964-1985). Além de ações de repercussão como a Comissão da Verdade, livros e filmes lançados recentemente também resgatam acontecimentos e contribuem para a compreensão do que ocorreu na época.

Um dos mais novos trabalhos nesse sentido é o documentário 1964 – Um golpe contra o Brasil, uma parceria entre o Núcleo Preservação da Memória Política e a TVT – Televisão dos Trabalhadores. Lançada em março deste ano, a produção tem como foco a questão do regime, mas com uma proposta diferente: relatar e analisar os momentos que antecederam o golpe.

“O Núcleo [de Preservação da Memória Política] pensou em um vídeo capaz de informar aos mais jovens o que foi o pré-golpe e o golpe para que se entendam os interesses de classe em jogo no Brasil naquele momento e os interesses do grande império estadunidense nessa história”, explica o diretor do documentário, o jornalista, escritor e artista plástico Alipio Freire.

O vídeo se antecipa aos 50 anos do golpe, que se completarão em 2014. Para Freire, é preciso desde já disponibilizar outras versões para os fatos, diferentes das que contam a história oficial. “É preciso que as pessoas, e sobretudo os jovens, tenham acesso a outro tipo de informação”, diz.

O documentário se inicia com a eleição de Jânio Quadros para a presidência da República e João Goulart como vice, em 1960, e se estende até a posse de Humberto Castello Branco, primeiro presidente militar, em 15 de abril de 1964. 

A narrativa foi construída a partir de depoimentos de militantes e opositores do regime como Almino Affonso, então deputado federal e ministro do Trabalho do governo Jango; Rafael Martinelli, dirigente do Comando Geral dos Trabalhadores (CGT); a socióloga Maria Victoria Benevides; Aldo Arantes, então presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), e João Pedro Stedile, da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

O vídeo não será comercializado, e sim distribuído para instituições, com a recomendação de que todas que recebam o material façam e difundam cinco cópias, a fim de que o projeto alcance o maior público possível. Em breve, também será disponibilizado na internet.

Para o segundo semestre, está previsto o lançamento de uma versão do documentário voltada à exibição nas escolas. Com o mesmo conteúdo, o material será dividido em oito módulos de 24 minutos cada.

1964 é o primeiro longa-metragem dirigido por Alipio Freire. Nascido em Salvador (BA) em 1945, Alipio Freire vive em São Paulo desde os 16 anos.

Sua militância na Ala Vermelha (grupo dissidente do PCdoB) durante o regime o levou à prisão entre 1969 e 1974. Em entrevista ao Brasil de Fato, o jornalista destaca a necessidade de desvelar os interesses de classe que compunham a luta política naquele momento.
  
Alipio Freire
Brasil de Fato – Como surgiu a ideia para esse documentário?

Alípio Freire – Quem pensou em fazer o vídeo foi o Núcleo de Preservação da Memória Política, do qual sou presidente nesse momento. O Núcleo pensou um vídeo capaz de informar aos mais jovens o que foi o pré-golpe e o golpe, para que se entendam os interesses de classe em jogo no Brasil naquele momento e os interesses do grande império estadunidense nessa história. No próximo ano serão 50 anos do golpe de Estado civil-militar e eles contarão suas versões oficiais, mais ou menos liberaloides ou ditatoriais, mas todas como um grande mouro [neste sentido, trabalho, abnegação da vida] pela democracia. É preciso que as pessoas, e sobretudo os jovens, tenham acesso a outro tipo de informação. Queremos que as pessoas possam entender bem aquele tempo, porque disso depende grande parte do presente e, sobretudo, o futuro do país.

Brasil de Fato – Qual a principal contribuição trazida por esse documentário, na sua  opinião?

Alípio Freire – É explicitar a disputa de classes no Brasil e de hegemonia dos Estados Unidos no mundo e entender a política como luta de classes. Política é luta de classes, é a disputa entre as classes, setores e segmentos pelos seus interesses. Não tem nenhuma mágica na política. No documentário, nós trabalhamos com as classes sociais no Brasil, tanto o grande capital aliado ao capital internacional quanto um programa gestado por setores da burguesia nacional a partir de um projeto de desenvolvimento nacional. Trabalhamos também com os trabalhadores urbanos, particularmente a classe operária, com o movimento camponês, estudantes, sujeitos que atuaram na política institucional de correntes políticas diferentes, pessoas da esquerda cristã, comunistas, trabalhistas. Mas não tive o menor interesse em entrevistar o outro lado. Ouvir certos outros lados em algumas circunstâncias é importante, mas eles [figuras do regime] estão falando o tempo inteiro nos jornais. Tem os filmes deles, que não nos ouvem. Essa é a tentativa de uma versão do povo brasileiro de sua história. É um vídeo com corte de classe, sim, como os deles são. Só que as nossas classes são outras. Há um corte tolo sobre a ditadura, que acredita que o golpe e a ditadura foram militares. Não foram. Os militares tiveram um peso, mas foi civil-militar. Quando você diz que é militar, onde você põe o fim da ditadura? Na hora em que o Tancredo [Neves] não assume porque fica doente, e assume outro civil, José Sarney. A ditadura não acaba aí. Acaba quando você constitui um novo Estado de Direito, e isso foi em 1988.

Brasil de Fato – Como tem sido a recepção do público?

Alípio Freire – As pessoas têm gostado, o que para nós é extremamente importante. Têm gostado não só dos conteúdos, mas da maneira como está exposto. Estou muito contente e vou ficar mais ainda quando os brasileiros, particularmente os jovens, e outros companheiros do mundo inteiro se apropriarem dessa história. [O vídeo] é um produto para incidir sobre o saber e a reflexão das pessoas, mesmo que não concordem com o que se fala.

Brasil de Fato – Você acredita que isso de alguma forma atrapalha a compreensão daquele momento?

Alípio Freire -  Muito, demais, porque evita que os que criam e alimentam os mitos façam a crítica às nossas derrotas e também às vitórias anteriores. Crítica no sentido de análise, não é xingar e muito menos um ataque pessoal contra o mito que geralmente não tem nada a ver com isso. São os seguidores que criam essa situação, e isso não é bom. Devemos atingir as pessoas olho no olho e pela porta da frente da cabeça, não mexendo com emoções desconhecidas. Respeitar os nossos companheiros que tombaram e lutaram lá atrás é uma coisa. A mitologização é outra, porque não trabalha com seres humanos, trabalha com os ideais, e isso ninguém foi e ninguém será.

Brasil de Fato – No teaser de apresentação do documentário você afirmou que é preciso superar o sentimento de “solidariedade ao sofrimento” que está presente em relação à ditadura. O que você quis dizer com isso?

Alípio Freire -  No conjunto da sociedade hoje vai se criando uma consciência, a partir dos governos civis, que desabrocha com mais visibilidade a partir do segundo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da presidenta Dilma [Rousseff]. Tiveram grande visibilidade as iniciativas do [ex-] ministro Paulo Vanucchi, dos Direitos Humanos, criando os Memoriais das Pessoas Imprescindíveis, jogando para a rua um assunto que estava entre quatro paredes; e do presidente da Comissão de Anistia, Paulo Abrão, que, ao criar as caravanas da Anistia, levou para o Brasil inteiro essa discussão. Fora os grupos de direitos humanos que, com isso, têm seu trabalho potencializado. Depois veio a Comissão da Verdade, que eu acho um avanço imenso para esse país. Acontece que, de um modo geral, o primeiro movimento das pessoas frente a isso é um sentimento extremamente generoso de solidariedade com os que foram perseguidos, torturados, assassinados e desaparecidos, o que é muito bom. No entanto, nós não podemos parar por aí. É preciso que toda essa sociedade saiba quais os motivos que moveram essas pessoas a resistir e o que aconteceu no país naquele momento. Consideramos fundamental dar a verdadeira dimensão política dos programas e projetos que estavam em curso durante o governo João Goulart e que foram massacrados pelas elites brasileiras.

Brasil de Fato – Falando um pouco sobre o período do pré-golpe, o que representava a figura do Jango naquele momento?

Alípio Freire - A rigor, o Jango representava um programa que se inicia pensado e aplicado no governo de Getúlio Vargas dos anos 1950, que o leva ao suicídio. Países atrasados com o desenvolvimento industrial buscavam esse desenvolvimento bancado pelo Estado e articulado com os capitais nacionais e fundado – daí seu grande aspecto popular – em um grande programa de distribuição de renda. A reforma agrária teria um papel fortíssimo nisso. Primeiro porque ela geraria trabalho próximo das ferrovias e das rodovias, e aí o camponês podia desaguar sua produção. Vinha junto com isso a luz elétrica no campo. A indústria de capital nacional produziria geladeiras, liquidificadores e máquinas de costura que eles [camponeses] poderiam consumir. Isso era uma revolução na concepção de Brasil naquele tempo. Ele [Jango] representava esse projeto.

Brasil de Fato – Havia mesmo o apoio das organizações populares para as reformas de base?

Alípio Freire -  Sim, mas o grande problema eram duas questões. Uma é um entulho autoritário que está presente até hoje, que é a Carta Sindical e o Imposto Sindical, ou seja, a subordinação da organização dos trabalhadores ao Estado. O movimento sindical durante a ditadura se bateu contra isso violentamente e depois as centrais sindicais não derrubaram isso. Se o sindicato começa a ter atividades de um tipo que não estão na Carta Sindical, o Estado pode intervir. Junto com essa questão está o tipo de política dominante, que é a organização dos trabalhadores e do povo em torno das sedes dos sindicatos e das lideranças. E o que acontece em 1964. Tudo era organizado em torno de líderes. Veio o golpe e bastou ocupar as sedes dos sindicatos, botar as lideranças para correr ou matar, que não sobrou organização independente da classe trabalhadora. É diferente, por exemplo, se os trabalhadores estivessem organizados dentro dos seus locais de trabalho. E isso serve tanto para os [trabalhadores] urbanos como para os rurais.

Brasil de Fato – De que forma, para você, os fatos narrados no documentário se relacionam com o presente?
 
Alípio Freire -  Toda essa memória tem que ser usada para a transformação do presente e do futuro. Senão ela vira nostalgia ou narcisismo. Essa memória tem que nos fazer lembrar que até hoje o mesmo terror de Estado da época da escravidão, da ditadura Vargas e da civil-militar instalada em 1964 permanece. Está nas chacinas das periferias de São Paulo e nas chacinas contra o MST no campo. Isso é o terror de Estado, as torturas continuam a existir. É que o foco agora saiu da repressão maior contra a oposição, e se fixou nos trabalhadores mais pobres. Nos bairros de periferia, não vigora sequer o mais singelo direito garantido pela Constituição, que é o direito de ir e vir. Começa a escurecer e todos se trancam em casa, com medo igualmente da polícia e do crime organizado, e cada vez temos mais dificuldade de saber quais os limites entre um e outro. O terror de Estado está aí, vivo.


“1964 – Um golpe contra o Brasil”
Direção: Alipio Freire
Duração: 147 minutos
Fonte:http://www.brasildefato.com.br/node/12500
1º/04/2013

OBRA DE PAULO FREIRE É DISPONIBILIZADA EM ACERVO DIGITAL



Pensador brasileiro colocou a educação como espaço e caminho para a transformação social.

Daniele Silveira da Radioagência NP


Paulo Freire
Com caráter público e de livre acesso, o Centro de Referência Paulo Freire disponibiliza textos, entrevistas, vídeos e imagens do educador. Todo o material compartilhado tem o objetivo de preservar e divulgar a memória do pensador brasileiro que colocou a educação como espaço e caminho para a transformação social.

O Centro ainda fornece em sua página na internet artigos e livros que podem ser baixados gratuitamente. No acervo há também publicações de diferentes autores que referenciam direta ou indiretamente o pensamento freiriano, como teses, monografias, poesias, programas radiofônicos, homenagens e depoimentos.

Em 1996, Paulo Freire concedeu entrevista ao Diário de Pernambuco sobre os avanços tecnológicos.O educador afirmou que a falta de investimento dos governos brasileiros em educação desabilitava o país frente aos desafios apresentados.

No entanto, Freire destacou que a sua avaliação não se centrava em uma análise de capacitação técnica e científica.

“A minha preocupação é muito política. A visão política da própria revolução tecnológica é o que me move, mas o que é preciso deixar bem claro é que não é mais possível perder tempo sem seriamente investir na educação do povo brasileiro.”

Paulo Freire nasceu em Recife (PE) em 1921. Foi reconhecido internacionalmente, ao propor ideias e práticas que resultaram no que hoje conhecemos como “educação popular”.

Freire defendia um processo de aprendizagem e construção do conhecimento a partir da reflexão sobre a própria realidade do educando. Entre suas principais obras está Pedagogia do oprimido, publicada em 1970, que foi traduzida para mais de 40 idiomas. Paulo Freire faleceu em São Paulo em 1997.  


02/05/2013

INDÍGENAS OCUPAM CANTEIRO DE BELO MONTE CONTRA HIDRELÉTRICAS NA AMAZÔNIA



Fazem parte da ação os povos Munduruku, Juruna, Kayapó, Xipaya, Kuruaya, Asurini, Parakanã, Arara, além de pescadores e ribeirinhos.
 
Ruy Sposati de Altamira (Pará) (texto e fotos) do Cimi

Os povos da floresta sob a mira do Estado Brasileiro-Foto Ruy Sposati (Altamira-PA)

Cerca de 200 indígenas dos rios Xingu, Tapajós e Teles Pires afetados pela construção de usinas hidrelétricas ocuparam nesta quinta-feira, 2, o maior canteiro dos quatro abertos para as obras de Belo Monte, no município de Vitória do Xingu (PA), a 50 quilômetros de Altamira. 

Em carta (leia na íntegra aqui)divulgada após a ocupação, os indígenas reivindicam a regulamentação da consulta prévia e a suspensão imediata de todas as obras e estudos relacionados às barragens nos rios onde vivem.

Juntos de uma centena de Munduruku de aldeias de Jacareacanga e Itaituba, no oeste do Pará, indígenas Juruna, Kayapó, Xipaya, Kuruaya, Asurini, Parakanã e Arara, além de pescadores e ribeirinhos da Volta Grande do Xingu, chegaram por volta das 11h30 no local da construção, paralisando os trabalhos de cerca de 6 mil operários do canteiro.

  

Militares da Rotam já estavam no local quando os indígenas chegaram. Um agrupamento da Tropa de Choque também foi enviado para o canteiro. Não houve confronto e a situação permanecia tranqüila até o início da noite.


"Nossa floresta e nosso rio são um dos últimos patrimônios do Brasil. É triste pensar: por que tantas barragens num rio só?", questiona Saw Exebu, porta-voz do cacique-geral dos Munduruku. É a primeira vez que Saw vê de perto a construção de uma barragem. "Estou vendo o peso dessa obra aqui. Não queremos que isso aconteça em nossas terras. Nós não queremos que sejam construídas barragens na nossa casa", afirma.


Para Saw, o governo vem querendo construir essas obras como se não existisse vida nos lugares e ressalta que “na verdade, se houver deserto, tem vida também, e ela precisa ser respeitada", diz. O Munduruku recorda os ensinamentos de seus antepassados sobre a natureza: "Esse nosso mundo e visão, o não-índio não entende.

O branco vem e diz: ´índio já tem tanta terra, índio é preguiçoso, não é produtivo´. Nós entendemos que essa natureza que não é pra acumular grandes riquezas. Aprendemos com nossos antepassados. Sabemos que ela precisa ser respeitada, que uma árvore é útil pra nós, que o rio é importante, a natureza, os animais, pequenos insetos. A gente depende dela. A floresta em pé da vida, dá alimento. Por isso dizemos que a natureza é nossa mãe”.


A sabedoria de Saw parece ser afrontada quando seus olhos percorrem o canteiro da usina. "A sociedade do não-índio não compreende, não consegue entender que temos nossos próprios alimentos, não temos supermercado, shopping, não temos universidade. Temos a natureza, é ela que nos ensina e dá tudo”, acrescenta.


O indígena acredita que, com a construção das barragens, além da destruição da natureza, os Munduruku também perderão parte de suas terras. "Nossos antepassados contam que nossas terras iam de Belém até as cabeceiras do Tapajós. Era grande o nosso mundo. Nós tivemos perdas de terras demais já. Agora chega", pontua.



Aliança


"Munduruku tem uma lenda que fala que nós não devemos lutar sozinhos. Por isso nós viemos aqui, junto com os parentes do Xingu, fazer aliança. A população indígena e o povo do Brasil todo têm que fazer essa aliança pra combater os projetos que tiram nossos territórios. O governo tem que nos respeitar", afirma Saw.   

Os Munduruku viajaram cerca de 900 quilômetros até a barragem de Belo Monte. "Viemos aqui pra fazer aliança, pra lutar contra os planos do governo de violar os direitos dos indígenas. Aqui é o momento de a gente reivindicar, cobrando, porque ninguém nos ouve. É o nosso direito ser ouvido". 

Sobre as acusações de que os Munduruku estariam declarando guerra contra o Estado brasileiro, o porta-voz é taxativo: "Nós só queremos nossos direitos. Nosso passado de caçador de cabeças passou. Nossa luta não é mais assim, assim como os modos dos brancos mudaram muito. Hoje nós queremos nossos direitos garantidos pela Constituição", explica Saw.

Enganados


Segundo Luis Gonzaga, indígena Xipaya morador da Volta Grande do Xingu, trecho do rio mais afetado pela obra, os indígenas se sentem enganados pelo governo federal. "O governo mente, e muito, sobre a nossa situação aqui. Mente pra gente mesmo nas reuniões, e mentem pra fora. Nada está sendo cumprido. Nós não fomos consultados. Não é do jeito que o governo fala. Por que só ouvem o governo?", indaga. 

Gonzaga frisa a aliança fechada pelos povos indígenas dos rios Teles Pires, Tapajós e Xingu que terão seus territórios afetados pelas usinas. "Nós nos juntamos aqui, pedimos o apoio dos parentes Munduruku pra gente se unir e lutar junto. A situação não é ruim só pra gente aqui no Xingu. Lá também estão tentando construir [barragens], no rio Tapajós. Eles vieram pra cá pra gente lutar juntos, assim como estamos prontos pra ir pra lá lutar junto com eles", conclui.



Decreto e assassinato


Ao invés do diálogo, a saída apresentada pelo governo federal para trabalhadores, indígenas, ribeirinhos, pescadores e demais comunidades tradicionais afetadas pelos empreendimentos foi o Decreto da presidente Dilma Rousseff nº 7957/2013 (leia aqui sobre o decreto). 

De caráter “preventivo ou repressivo”, a medida cria a Companhia de Operações Ambientais da Força Nacional de Segurança Pública, tendo como uma de suas atribuições “prestar auxílio à realização de levantamentos e laudos técnicos sobre impactos ambientais negativos”.


Ainda no Pará, o povo Munduruku e comunidades tradicionais estão mobilizadas contra o Complexo Hidrelétrico do Tapajós e Teles Pires, que envolve um conjunto de usinas e barragens (leia aqui histórico). 

Durante o último mês de abril, cerca de 250 soldados da Força Nacional e da Marinha foram deslocados, por solicitação do Ministério de Minas e Energia, com base nos dispositivos do Decreto 7957, para municípios onde incidem áreas afetadas pelos empreendimentos, além de território de ocupação tradicional reivindicado pelo povo Munduruku.


Em novembro do ano passado, um indígena Munduruku foi assassinado em ataque da Polícia Federal a aldeia Teles Pires (leia reportagem aqui), na fronteira do Pará com o Mato Grosso, e a tal morte se refere a carta dos indígenas. 

No contexto do documento divulgado, há também outras formas de desrespeito do governo federal, como o local sagrado de Sete Quedas, cachoeira do rio Teles Pires, onde estão enterrados os antepassados dos indígenas e o registro da história do guerreiro Munduruku Muraycoko, naquilo que a sociedade envolvente chama de sítio arqueológico, que será alagado pelas barragens da usina (leia aqui documento reivindicando a preservação do local).


Fonte: http://www.brasildefato.com.br/node/12809

02/05/2013

quarta-feira, 1 de maio de 2013

DIA DO TRABALHO: SAIBA COMO SURGIU O FERIADO DO DIA 1º DE MAIO



Edgard Matsuki - Portal EBC

Saiba como foi criada a data que se tornou feriado em cerca de oitenta países no mundo
  
Trabalhadores unidos em busca de liberdade
O primeiro dia do mês de maio é considerado feriado em alguns dos países do mundo. Além do Brasil, Portugal, Rússia, Espanha, França, Japão e cerca de oitenta países consideram o Dia Internacional do Trabalho um dia de folga.


A data surgiu em 1886, quando trabalhadores americanos fizeram uma paralisação no dia primeiro de maio para reivindicar melhores condições de trabalho. O movimento se espalhou pelo mundo e, no ano seguinte, trabalhadores de países europeus também decidiram parar por protesto. Em 1889, operários que estavam reunidos em Paris (França) decidiram que a data se tornaria uma homenagem aos trabalhadores que haviam feito greve três anos antes.


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Gradativamente, outros países foram aderindo ao feriado. No Brasil, o feriado começou por conta da influência de imigrantes europeus, que a partir de 1917 resolveram parar o trabalho para reivindicar direitos. Em 1924, o então presidente Artur Bernardes decretou feriado oficial.

Homenagem do google ao dia do trabalhador
Além de ser um dia de descanso, o 1º de maio é uma data com ações voltadas para os trabalhadores. Não por acaso, a Consolidação das Leis de Trabalho (CLT) no Brasil foi anunciada no dia 1º de maio de 1943. Por muito tempo, o reajuste anual do salário mínimo também acontecia no Dia do Trabalho.


Fonte: http://www.ebc.com.br/noticias/brasil/2013/04/dia-do-trabalho-conheca-como-surgiu-o-feriado-do-dia-1o-de-maio



30.04.2013