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segunda-feira, 20 de julho de 2020

NÃO HÁ COMO CONVIVER MAIS 2 ANOS COM UM GOVERNO GENOCIDA", DIZ FREI BETTO



Frei Betto: Frade dominicano é autor da obra "O diabo na corte - Leitura crítica do Brasil atual”, que aborda os processos que levaram Bolsonaro à presidência - Foto: Rodrigo Buendia/AFP

O escritor e assessor da FAO para soberania alimentar comenta o avanço da fome e a crise sociopolítica no Brasil

Lu Sudré

                                                 Frei Betto Foto: Rodrigo Buendia/AFP



Crescimento exponencial da fome, altos índices de desemprego, precarização do trabalho e mais de 74 mil vidas perdidas em meio à pandemia do coronavírus. Esses são alguns elementos da realidade brasileira que, na opinião de Frei Betto, renomado escritor e frade dominicano, explicitam uma “política de morte” protagonizada pelo governo de Jair Bolsonaro.


Em entrevista exclusiva ao Brasil de Fato, Frei Betto analisa o atual contexto político e socioeconômico do Brasil, agravado pela crise sanitária em decorrência da covid-19.
“Todas as medidas de proteção da vida dos mais pobres estão sendo totalmente desmontadas em uma política intencional de genocídio. Isso exemplificado nessa semana, quando o presidente veta o dispositivo da lei de precauções sanitárias, que previa a doação de máscaras para pessoas presas”, afirma o escritor, citando Cuba e Vietnã como países que adotaram as medidas de precaução necessárias para proteger a população. 
“Aqui não. Aqui, realmente, o governo é cúmplice do genocídio e dessa mortandade”, endossa o autor O diabo na corte - Leitura crítica do Brasil atual, publicado pela Cortez Editora. 
O cenário tende a se agravar. Segundo documento da Oxfam divulgado na semana passada, até 12 mil pessoas podem morrer por fome diariamente, até o final de 2020, devido às consequências da pandemia. Ao lado da Índia e da África do Sul, a organização aponta o Brasil como um provável epicentro da fome no mundo.
Dados do relatório O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo 2020, desenvolvido pela Organização das Nações Unidas (ONU), registram que, em 2019, 43,1 milhões de brasileiros enfrentaram a insegurança alimentar severa e moderada.
Para Frei Betto, que é assessor da FAO para soberania alimentar e educação nutricional, o fato de milhões de brasileiros estarem à beira da fome é resultado do desmonte das políticas e dos mecanismos de proteção social que tiraram o Brasil do Mapa da Fome.
“É óbvio que os que nos levou a alcançar essa marca foi a falta de uma política de segurança alimentar do ‘governo Bolsonero’, considerando o genocídio que se produz nesse país, especialmente em cima do surto do novo coronavírus”. O termo Bolsonero é uma referência ao imperador romano que entrou para a história por ter mandado incendiar Roma. 
“É muito difícil que o Brasil continue fora do Mapa da Fome. Nós estamos em uma situação séria. A única solução hoje, como tem sido adotada agora na pandemia, é a mobilização social. Isso tem que ser intensificado. Como dizia Betinho, a fome tem pressa”, defende o assessor da FAO.
Ele é enfático ao defender o que deve ser feito para impedir o avanço das políticas do governo: “No momento que a pandemia cessar, vamos para rua. Não tem outro jeito. Vamos ocupar as ruas como já tinha começado no início da pandemia, para manifestar a nossa insatisfação e tentar mudar esse quadro político. Não há como pensar na possibilidade de conviver mais dois anos e meio com um governo genocida.” 
Confira a entrevista na íntegra.

Brasil de Fato - Em 2019, 43,1 milhões de pessoas foram afetadas pela insegurança alimentar moderada e severa no Brasil. É um contingente muito grande de pessoas. O que nos levou a chegar a essa marca?

Frei Betto - Isso é mais do que a população da maioria dos países da América Latina. É óbvio que os que no levou a alcançar essa marca foi a falta de uma política de segurança alimentar do governo Bolsonero, considerando o genocídio que se produz nesse país, especialmente em cima do surto do novo coronavírus. 
Ou seja, no dia em que estamos falando, 73 mil pessoas, desde março, faleceram por descaso do nosso governo. Quando penso que em um país como Cuba, faleceram 86 pessoas, em um país como o Vietnã, nenhuma pessoa, porque os governos tomaram as medidas de precaução... Aqui não. Aqui, realmente, o governo é cúmplice do genocídio e dessa mortandade. 
Há várias políticas para salvar vidas que foram articuladas no Brasil durante os 13 anos do governo do PT e todas elas estão sendo desarticuladas e desmontadas. Isso vale para a questão trabalhista, previdenciária, proteção dos povos indígenas, dos quilombolas. 
Todas as medidas de proteção da vida dos mais pobres estão sendo totalmente desmontadas em uma política intencional de genocídio. Isso exemplificado nessa semana, quando o presidente veta o dispositivo da lei de precauções sanitárias, que previa a doação de máscaras para pessoas presas. 
E já são mais de 700 presos infectados no Brasil, inclusive um deputado que estava preso lá no Paraná, Meurer, primeiro condenado da Lava Jato. Preso, 78 anos, morreu antes de ontem. Já são 72 presos mortos. Quando o presidente assina um decreto vetando que se distribua máscara, uma coisa muito simples, é porque ele quer que os presos morram. Não é que isso representa um gasto, é porque para ele, "bandido bom é bandido morto". Exatamente o lema dos esquadrões da morte, das milícias, dos gabinetes de ódio.
Eu creio que a razão do aumento da insegurança alimentar no país e das pessoas em situação de fome, é em decorrência da falta de uma política de atenção básica da nossa população.
O que é mais grave é que mesmo esse auxílio emergencial não é suficiente. Primeiro, 70 milhões de pessoas se alistaram, muito mais que o previsto, o que revela que existe um contingente de pessoas em extrema pobreza muito maior do que se pensava. Segundo, dessas, os recursos chegaram a apenas 49%. Ou seja, há uma margem de recursos que foi destinado para os mais pobres, teoricamente, no papel, e não chega a eles.
E terceiro, muitos oportunistas, bandidos, corruptos e aproveitadores, inclusive recrutas e oficiais das Forças Armadas. Muita gente que não merece se inscreveu e recebeu. Enquanto inúmeros outros que necessitam, precisam, estão na extrema pobreza, por conta da burocracia, falta de internet, pessoas desprovidas desses recursos tecnológicos, ficam sem receber. 
Brasil de Fato - Em relação às políticas que ajudaram a retirada do Brasil do Mapa da Fome, qual o peso de programas como o Bolsa Família, por exemplo? Como o senhor avalia a forma que o governo lida com esse programa?

Frei Betto - Ele lida constrangido. Primeiro, ele gostaria que esse programa não existisse. Segundo, ele se sente constrangido por esse programa não ter sido uma criação dele, foi uma criação do PT. Que primeiro criou o Fome Zero onde eu trabalhei. Depois o Fome Zero ganhou o nome de Bolsa Família quando houve uma mudança de sua estrutura.
Devo dizer mudança da qual discordei. O Fome Zero como estava concebido tinha um alcance emancipatório. A família que entrasse no Fome Zero estaria autônoma, sem depender de recursos do governo federal. O Bolsa Família é muito bom mas é compensatório, não é emancipatório. Portanto a família que entra não pode sair. Se sair, corre o risco de voltar para a extrema pobreza.
Aliás, caso algum leitor ou ouvinte esteja interessado em conhecer os detalhes disso, está tudo descrito no meu livro Calendário do poder. Um diário do meu trabalho quando assessor especial do presidente Lula para o Fome Zero. Um livro da editora Rocco. E também no meu site, onde podem obter o livro até mesmo mais barato.
Pois bem. Essas políticas de segurança alimentar adotadas no Bolsa Família, um programa que eu aplaudo devido à importância que ele tem.. Mais de 50 milhões de famílias beneficiadas. Mas o governo Bolsonaro não tem interesse em ampliá-lo. Hoje existe uma fila imensa de pessoas, quase 1 milhão, esperando a adesão.
E agora isso vai aumentar. O desemprego oficial já era, no início da pandemia, de 12 milhões de pessoas. Agora, com o início da pandemia, esse número chega a 28 milhões de pessoas. Imagina 28 milhões de pessoas em uma população com 100 milhões de trabalhadores economicamente ativos. Somos 200 milhões de habitantes e todos somos sustentados por esses 100 milhões que trabalham. 
É muito grave o que vem acontecendo porque a pandemia aumentou o desemprego e aumentou a insegurança trabalhista. As questões trabalhistas já vinham sendo sucateadas desde a reforma trabalhista.
Uma série de medidas foram adotadas para colocar no chão todas as conquistas da classe trabalhadora que estavam consolidadas na CLT. Isso tudo foi desarticulado com as reformas trabalhistas e previdenciárias. E hoje temos uma suberização do trabalho. Cada vez mais o empregado é praticamente um escravo, realmente não tem garantias. 
E ele tem que trabalhar muito e excessivamente para conseguir assegurar o mínimo de sobrevivência. Por isso é muito importante essa reação dos entregadores de encomendas, os motoboys entregadores têm feito ultimamente.  
Brasil de Fato - Em meio à pandemia, a discussão colocada pelo governo criou uma polarização entre a economia e saúde. E estamos assistindo reaberturas consideradas precipitadas por médicos e especialistas da área da saúde? Como o senhor avalia essa postura e esse processo de resposta à pandemia?

Frei Betto - É um dilema totalmente falso. Primeiro porque a economia não é concebida no Brasil em função da maioria da população. É concebida em função dos detentores do capital. Em função da elite, daqueles que têm acesso à aplicações financeiras na Bolsa de Valores.
Então, na verdade, a proposta genocida do governo é "vamos deixar que morram os brasileiros, sobretudo os mais vulneráveis, os pobres, os idosos, os que têm doenças pré-existentes, porque isso irá trazer uma economia de recursos". Explico: Se não se toma nenhuma providência para deter a pandemia, que foi a opção do Bolsonaro, você tem maior mortandade entre os oneráveis.

Não existe dilema. Na verdade é isso: 'Que se danem as pessoas de classe C, D e E no Brasil'

Primeiros os idosos. Ora, morrer muitos idosos representa uma grande economia pro INSS. Segundo, os que têm doença pré-existente. Se morrerem esses, é uma grande economia para o SUS. E terceiro, morrendo os mais pobres, uma grande economia para o Bolsa Família e outras medidas de proteção social.
É esse o panorama. Não existe dilema. Na verdade é isso:  "Que se danem as pessoas de classe C, D e E no Brasil" e salvemos as classes A e B". A classe alta e a média alta. Isso que importa ao governo.
 Brasil de Fato - Como o Estado brasileiro deveria estar agindo nesse momento? Qual o papel do Estado em meio à crises como essa?

Frei Betto - O que o Estado deveria fazer, nesse governo, seja com Bolsonaro ou com Mourão, não tem nenhuma perspectiva. A pergunta que temos que fazer é o que o povo brasileiro deve fazer. O que os movimentos sociais, as instituições democráticas e os partidos progressistas devem fazer. Temos que agir cada vez mais. É uma atrocidade o que vem acontecendo em nosso país.
É preciso pressionar cada vez mais o Congresso para tomar medidas contrárias a essas que o Bolsonaro tem assinado medidas provisórias que ele propõe. E no momento que a pandemia cessar, vamos para rua. Não tem outro jeito. Vamos ocupar as ruas como já tinha começado no início da pandemia, para manifestar a nossa insatisfação e tentar mudar esse quadro político. Não dá pra pensar na possibilidade de conviver mais dois anos e meio com um governo genocida. 
Um governo geocida porque a questão do desmatamento da Amazônia, da desproteção ambiental, de deixar passar a boiada, favorecer as mineradoras do garimpo ilegal, permitir invasão das áreas indígenas. Tudo isso é uma desgraça absoluta sobre o Brasil, uma desgraça absoluta sobre o Brasil. E só há uma possibilidade de deter esse processo, que é a mobilização popular. 
 Brasil de Fato - A Oxfam divulgou um estudo recentemente, apontando que o Brasil está entre os prováveis epicentros da fome no mundo em meio à pandemia. Nesse sentido, gostaria de te perguntar sobre a situação das políticas de soberania alimentar e nutricional, principalmente no campo. 

Frei Betto - Na verdade, as boas políticas que existem são feitas pelos movimentos populares, como o MST. Nos seus acampamentos e assentamentos, o MST tem implementando medidas que são mundialmente exemplares e que tem dado muito resultado. Agora, da parte do governo não há nada. O governo acabou com o Consea, desarticulou todos os mecanismos que deveriam assegurar a seguridade alimentar e levaram o Brasil a sair do Mapa da Fome. Nós corremos o risco de voltar. 
Vem aumentando o número de pessoas em situação de risco grave de desnutrição. Até porque, com a pandemia, há um aumento no preço dos alimentos. Em decorrência da falta de transporte, a questão do isolamento social, em decorrência do desemprego muito grande principalmente nas áreas de transporte, serviços, agricultura e etc.
Por exemplo, no interior de São Paulo tem muitas colheitas que sazonalmente atraem trabalhadores de outras regiões do país. Isso agora se tornou mais difícil. Outro dia mesmo vi uma cena terrível. Em Santa Catarina, jogando em um foço, milhares e milhares de frutas, porque não havia como escoá-las. Um pouco aquela política de ao invés de distribuir, joga-se no lixo para que o preço do produto não caia. 
Então é muito difícil que o Brasil continue fora do Mapa da Fome. Nós estamos em uma situação séria. A única solução hoje, como tem sido adotada agora na pandemia, é a mobilização social. Vejo aqui nas favelas de São Paulo, principalmente a Central de Movimentos Populares tem feito um excelente trabalho de coletas de recursos para compra e distribuição de cestas básicas. 
Isso tem que ser intensificado, é muito importante porque, como dizia Betinho, a fome tem pressa. São muitas famílias desamparadas, principalmente as que são chefiadas por mulheres. Sabemos que 40% da força de trabalho brasileira está na informalidade, são trabalhadores informais. E a maioria são mulheres que não têm o mesmo salário que os homens, e ao mesmo tempo, elas têm uma dupla jornada de trabalho. O trabalho fora de casa e o trabalho dentro de casa. Cuidar da casa e das crianças, dos filhos.

"É muito difícil que o Brasil continue fora do Mapa da Fome"

Um governo minimamente decente, minimamente justo, deveria se preocupar com esses seguimentos vulneráveis e garantir como outros países têm feito, não só a segurança alimentar mais uma renda básica.
Eu creio que a ideia do Suplicy, da renda básica universal, é cada vez mais premente. É preciso que governos do mundo inteiro adotem para toda a população, independentemente de etnia, de sexo, de idade, uma renda básica mínima. O resultado está provado nos poucos países que fizeram isso, o resultado é altamente positivo. 
Ninguém vai morar na rua, ninguém vai para a criminalidade, por vontade própria. Por isso que eu digo: Não existem pessoas pobres, existem pessoas empobrecidas. Ninguém quer viver na pobreza. As pessoas que estão nessa situação foram estruturalmente levadas a ela. E fazem tudo para tentar sair. Seja pelo esforço do trabalho, pela sorte na loteria, pelo milagre na igreja da esquina, seja pela criminalidade.
Ninguém se conforma em viver privado de bem essenciais, principalmente os três básicos na garantia de direitos humanos. Pela ordem são: alimentação, saúde e educação.  
Brasil de Fato - O senhor falou sobre a questão do desperdício da comida, do aumento do preço. Quais ações emergenciais para os pequenos agricultores poderiam ser tomadas nesse momento, tendo em vista a importância dessa produção?

Frei Betto - Os pequenos agricultores garantem 70% dos alimentos que chegam à nossa mesa. As grandes empresas produzem para a exportação, não para o mercado interno. A mesa do brasileiro é 70% assegurada pela agricultura familiar. 
Nos governos do PT, várias medidas altamente positivas foram adotadas para incentivar a agricultura familiar, para dar a ela segurança mesmo em períodos de entressafras. O que também foi feito com os pescadores. Não é o ano inteiro que eles podem buscar o peixe no mar, então o governo assegurou um complemento de recurso pelos quais eles tinham a renda garantida. Isso tudo tem sido desmontado, anulado, negado. 

"A mesa do brasileiro é 70% assegurada pela agricultura familiar"

Creio que aí está a pressão importante também do povo do campo com apoio da cidade.  Não existe isso da luta ser só de um. A luta dele deve ser a de todos nós. Há um avanço criminoso do latifúndio, do agronegócio e das mineradoras também sobre a agricultura familiar. Aconteceu algo que é uma tragédia que faz esse setor pensar.
Por exemplo, os frigoríficos. O Brasil é um grande exportador de carne. Muitos frigoríficos estão paralisados, seja porque a maioria dos trabalhadores pegaram a covid-19, ou devido aos importadores, como aconteceu com a China, suspenderam a importação.
A China suspendeu a importação de carne de 3 grandes frigoríficos no Brasil porque a carne que chegou lá estava também contaminada. Isso vai obrigar esses exportadores a repensarem as condições de trabalho. Não dá para enganar quem exige qualidade e muitos importadores estão interessados na qualidade. E agora, mais do que isso, estão pressionando o governo para a questão do fim do desmatamento e da preservação ambiental.
O governo está em uma sinuca. Não é política dele fazer preservação ambiental. Se tivesse o mínimo de honestidade quando fala de preservação ambiental, a primeira medida que deveria ser tomada é demitir o atual ministro do meio ambiente, o Salles. O do "passar a boiada". Mas enquanto o Salles estiver a frente do Ministério do Meio Ambiente, fica óbvio, que o governo não pretende mudar sua política de devastação ambiental.   

Brasil de Fato - Os dados apontam que também haverá o aumento da fome em outros países. Qual o contexto global? Qual lógica está por trás desse processo, que permite que cheguemos a esse ponto tão extremo?

Frei Betto - Em 2019, mais de 10 milhões de pessoas ingressaram em situação de fome no mundo. Hoje são 690 milhões de famintos em todo planeta. Isso representa 8,9% da população mundial. Com a pandemia, esse número pode ser acrescido de mais de 270 milhões até o fim desse ano. Nos últimos cinco anos, o aumento de famintos é de quase 60 milhões de pessoas. 
A desnutrição tem aumentado pelo quarto ano seguido e hoje um a cada dez habitantes do planeta sobrevivem em insegurança alimentar. A FAO, órgão da ONU para qual eu trabalho, está prevendo que o coronavírus acrescente 132 milhões de pessoas ao número total de indivíduos subnutridos apenas esse ano, em consequência dos impactos provocados pela covid-19.
Hoje temos mais de 7 bilhões de habitantes dos quais 2 bilhões não têm acesso regular a alimentos nutritivos, de qualidade e quantidade suficiente. Cerca de 3 bilhões de habitantes, quase a metade da população global, não tem meios para manter uma dieta considerada minimamente equilibrada. Como por exemplo, ingerir quantidade suficiente de frutas e legumes.
Em média, uma dieta saudável custa cinco vezes mais do que uma dieta que só atinge as necessidades de energia com alimentos ricos em amido. Eles até engordam, mas não nutrem. 
Nós temos muito amido como mandioca, que as pessoas repetem diariamente na alimentação porque não tem alternativa. Mas isso não tem as vitaminas, os nutrientes essenciais para uma saúde boa e uma dieta saudável.
A obesidade vem aumentando, tanto em adultos quanto em crianças. E muitas vezes por causa da fome [da ausência de alimentação de qualidade]. Uma alimentação saudável é inalcançável para 38% da população mundial, essas quase 3 bilhões de pessoas. Dessas, 104 milhões vivem na América Latina e no Caribe.
Quem mais sofre com a ausência de alimentação saudável são as crianças. Ano passado, 144 milhões de crianças abaixo de cinco anos foram atingidas pelo crescimento atrofiado. Enquanto outras 38 milhões estavam com excesso de peso.
A questão já era grave antes da pandemia, se agrava agora e realmente precisamos colocar isso às claras. Denunciar, propagar e pressionar o governo. Nos mobilizar para mudar essas políticas governamentais.
Brasil de Fato - O senhor tem viajado para outros países enquanto assessor da FAO. Existem exemplos de combate à fome que poderiam ser seguidos?

Frei Betto - Em quase todos os países existem experiências setoriais e locais muito interessantes. Mas tenho acompanhado mais de perto a experiência cubana. Cuba é um país sui generis. Primeiro que é o único país socialista da história do Ocidente. Segundo, é o único país socialista da América e do Caribe. E terceiro é uma ilha, não só no sentido geográfico, mas também uma ilha econômica. Cortada, bloqueada e agredida permanentemente há mais de 60 anos pelo governo dos Estados Unidos.
Ali, toda a população, mais de 11 milhões de habitantes, tem seus direitos básicos totalmente assegurados. Alimentação, saúde e educação. Nenhum cubano passa fome.  
Há um cartaz em Cuba que é muito emocionante. Quando você chega no aeroporto de Havana tem um outdoor com a foto de uma criança cubana sorrindo. E escrito o seguinte: essa noite, 200 milhões de crianças dormirão nas ruas do mundo. Nenhuma delas é cubana. E é verdade. 
Em Cuba não existe isso. O governo toma providências, há tempos, de aprimorar a segurança alimentar. E agora tenho feito justamente um trabalho junto ao governo. Primeiro teve uma crise com a Queda do Mundo de Berlim.  Cuba contava, na questão alimentar, com muita ajuda dos países da União Soviética. Depois Cuba contava com muita ajuda dos governos de esquerda da América Latina. Governos Lula e Dilma favoreceram muito a questão alimentar em Cuba.
O Brasil é um dos maiores produtores mundiais de alimentos e Cuba tem muita dificuldade. É um país que carece de recursos para ter a multiplicidade de alimentos que temos no Brasil. Para se ter uma ideia, em Cuba não tem sequer condições, como se tem aqui, de produzir energia elétrica. Não tem grandes rios, não tem cachoeiras. A energia elétrica é mantida a base do petróleo importado, uma importação cara.
Apesar disso, há uma cesta básica garantida mensalmente para cada uma das famílias cubanas. Depois que os países da América Latina começaram a perder governos progressistas, quem ajudava muito Cuba era a Venezuela. Mas com a crise com a Venezuela, cessou. 
E aí entra esse programa que nós da FAO estamos desenvolvendo para fortalecer a soberania alimentar e a educação nutricional em Cuba. São muitas medidas, é muito interessante, mas isso é um assunto pra outra conversa. 
Brasil de Fato - Até mesmo a partir da sua atuação na ONU, como o Brasil está sendo visto lá fora? Qual a imagem do nosso país neste momento?

Frei Betto - As pessoas adoram os brasileiros e brasileiros, a natureza, os que nunca vieram dizem que querem vir conhecer a Amazônia, o Pantanal, as praias. Agora, um horror ao governo. E a pergunta: "Como foi possível o povo brasileiro escolher um Bolsonero? O que aconteceu que de repente, depois de 21 anos de ditadura militar que vocês sofreram como se explica isso?".
E realmente daí o meu livro O diabo na corte. É uma tentativa de ajudar na análise desse fenômeno negativo na história do nosso país. Fica minha dica para os ouvintes e leitores. "O Diabo na corte" pode ser adquirido mais barato através do meu site.

"Como foi possível o povo brasileiro escolher um Bolsonero?"

Brasil de Fato - O senhor mencionou que é muito improvável que o Brasil se mantenha fora do Mapa da Fome. Estamos de mãos atadas? O que fazer para reverter o quadro?

Frei Betto - Estamos de mãos atadas pela dificuldade que a pandemia nos impõe de mobilização nas ruas. Mas temos que pressionar o Congresso, a mídia, fazer o que tiver ao alcance de cada um de nós. Agora depende do governo, não temos como improvisarmos. Claro que há iniciativas muito positivas como a do MST, nos assentamentos, mas elas são pontuais. Precisamos de medida de alcance nacional e isso tem que ser feito via governos, não tem outra maneira. 
Brasil de Fato - Estamos vendo um cenário cada vez mais graves em países que adotam o modelo neoliberal, mas em meio à pandemia houve orientações de entidades como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, que falaram sobre a importância de ajudar a população e da não realização de ajuste fiscal. O senhor acha que a pandemia mudou algum consenso?

Frei Betto - Eu não confio nesse discurso. Acho que é um discurso demagógico que não chega a prática. Eles querem mesmo, cada vez mais, manter a economia dos nossos países asfixiada. O FMI está em pânico com a possibilidade do Fernandez, na Argentina, declarar moratória. 
Há alguns governos percebendo que é importante aumentar as medidas de amparo social, de políticas sociais para os pobres e vulneráveis, até porque existe um detalhe nesse aspecto: assim como o vírus não faz distinção de classe, mas atinge majoritariamente o mais pobres, quanto maior a pobreza mais a possibilidade de novos vírus aparecerem. Agora a questão da miséria e da pobreza, além de ser uma questão social, econômica e política, se tornou uma questão sanitária. Isso realmente exige uma reflexão profunda de vários setores da sociedade. 
Inclusive de alguns setores das altas finanças. Pode ser que dentro do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial haja diretores conscientes disso. Mas duvido muito que a instituição como tal vá mudar sua diretriz de defesa intransigente do capital privado e não dos direitos coletivos. 
Brasil de Fato - Qual a perspectiva para a população brasileira nos próximos anos sob o governo Bolsonaro?

Frei Betto - Acho que primeiro temos a perspectiva dos próximos meses, que é votar bem nas eleições municipais. Votar em candidatos progressistas, éticos, comprometidos com os movimentos sociais, com os setores mais vulneráveis, com as minorias. Isso é muito importante que comecemos a nos mobilizar desde agora para mudar o perfil dos municípios. Votar em prefeitos realmente identificados com as demandas populares. 
Avaliando as grandes necessidades, como os candidatos reagiram diante da pandemia. E, ao mesmo tempo, começar a preparar as forças políticas para evitar que o Bolsonaro seja reeleito ou aquele que o suceder, caso ele não chegue ao fim do mandato.
Ou seja: mudar totalmente esse governo militarizado que só veio agravar mais a situação dos direitos humanos e dos direitos em geral, trabalhistas e previdenciários, do povo brasileiro.








Edição: Rodrigo Durão Coelho
Brasil de Fato | São Paulo (SP) 15 de Julho de 2020 









POBRE, NEGRO, GAGO, EPILÉTICO: MACHADO DE ASSIS TEVE QUASE TUDO CONTRA SI



Autor de romances marcados na história da literatura brasileira completou 181 anos de nascimento no último domingo (21)
Cláudio Soares*


MACHADO DE ASSIS

Escritor e autor de obras como "Dom Casmurro", "Memórias póstumas de Brás Cubas", entre romances, peças, contos e poemas - Reprodução

  

Não era o triunfo acachapante que fascinava o escritor Joaquim Maria Machado de Assis. Cético até a espinha, o autor de "Dom Casmurro" soube exercitar como poucos “a arte das conveniências e das meias palavras”. Para muitos dos seus contemporâneos, Machado foi um homem estranho, singular, misterioso e perturbador. Sua figura retraída e tensa tinha alguma coisa de paradoxal, de desconcertante, de aparente contraste entre a pessoa e o artista. 
Como aquelas “pessoas que parecem nascer errado, em clima diverso ou contrário ao de que precisam” (a frase é do próprio autor, um grande frasista), pessoas que lhes sendo possível sair de um clima adverso para outro que lhes seja mais adequado, parece que foram restituídas a si próprias, ao seu próprio destino, Machado de Assis teve quase tudo contra si, em uma sociedade desigual e cruelmente injusta. 

“Negro, pobre, gago, epilético, ainda assim, o escritor conseguiu se transformar no nome de maior peso na literatura brasileira, sendo o mais completo e complexo dos nossos artistas.”

Talvez o único de nossa desgarrada literatura, a ter características de verdadeiro clássico universal. Ainda que seja praticamente impossível “extraí-lo” dos nossos antecedentes naturais. Filho dos trópicos, Machado se sentia aborrecido pelo excesso e pela opulência da nossa paisagem. Acabou por fixar o seu objeto de estudo na alma humana: má, infiel, mentirosa, canalha, de uma canalhice atroz, expressão autêntica da natureza humana.  
Machado de Assis foi um homem que, segundo Rui Barbosa (que também tinha o dom da palavra), “prosava como o Frei Luiz de Souza e cantava como Luiz de Camões”. Certamente, nenhum outro escritor brasileiro foi tão estudado e por ângulos tão diversos como esse carioca nascido no Morro do Livramento, na Gamboa, Zona Portuária da cidade do Rio de Janeiro, em 21 de junho de 1839.
Foi homem de muitos amigos, mas apenas no sentido da discreta amizade que lhes permitiu: sem dedicação ou intimidade maiores que a dos comentários “não polêmicos”. João Ribeiro, escritor e folclorista sergipano, membro da Academia Brasileira de Letras, acreditava que para Machado de Assis, “os amigos não passavam de necessidades de diálogo, alguma coisa melhor do que falar sozinho”. 
Vale registrar que Machado detestava os elogios (“insuportáveis”) de homens “derramados”. Ainda assim, não são poucos os relatos de quem o conheceu pessoalmente enfatizando a sua “quase inverossímil doçura social”, contrastando fortemente com um autor que, como poucos, soube manusear a pena da amargura e da dissimulação. 
A grande verdade é que o "bruxo" foi um analista impiedoso, “sádico” até, que soube expor cruelmente um niilismo central nas coisas humanas, além de cultivar cuidadosamente, na vida, formas amáveis e requintadas de sociabilidade, como a indulgência, a discrição e a cortesia.

“Soube ser graciosamente pessimista e triste. O entusiasmo, aliás, era para ele algo repugnante.”

Machado de Assis fez bem quase tudo que empreendeu em literatura. Soube, como o italiano Dante Alighieri, atravessar o seu inferno, com um ceticismo cáustico, “suportando com paciência, a dor do próximo” e, com estoicismo, a sua própria dor. Mas, pagou um preço caro por sua “serenidade” impositiva. 
Pela enfermidade e pelo pensamento, penetrou no mundo subterrâneo da alma humana, atravessando as sombras frias, encarando o desespero mudo, a solidão severa, a revolta sem ilusão. Soube extrair das páginas de sua própria vida e obra o sorriso melancólico, a tristeza patética e a dúvida pusilânime.
Sem raízes
O poeta Jorge de Lima, autor de Invenção de Orfeu (1952) lembrou em um artigo que quando Machado de Assis morreu, Joaquim Nabuco, seu amigo, escreveu uma reprimenda a José Veríssimo, famoso crítico literário da época: 
“Seu artigo no Jornal do Commercio está belo, mas esta frase causou-me arrepio: mulato. Eu pelo menos só vi em Machado de Assis, o grego. Não teria chamado Machado de mulato e penso que nada lhe doeria mais do que essa síntese. Rogo-lhe que tire isso, quando reduzir os artigos a páginas permanentes”. 
Para Nabuco, Machado era um cidadão “branco” em vida e “alvíssimo” depois de morto. Essa visão “esquizofrênica”, pode ter sido reforçada pelo próprio autor das Memórias Póstumas de forma conscientemente ou inconscientemente (mais difícil de acreditar). 
Enquanto pode, Machado evitou toda e qualquer tentativa de devassa de sua história familiar, inclusive a humildade de sua filiação, que poderiam, talvez, ter lhe proporcionado as melhores páginas da sua literatura. Não deixa de ser um incômodo, ainda, que Machado tenha escrito tão pouco sobre os negros. 
O seu passado, Machado de Assis matou no esquecimento. Pouco ou nada falou de Maria Leopoldina, sua mãe, nem de Francisco de Assis, seu pai, ou de sua irmã (morta precocemente, aos 4 anos de idade). Afastou-se por completo de Maria Inês da Silva, sua madrasta, que após a morte de Francisco, terminou de criá-lo. Machado se aristocratizou como um intelectual do seu tempo, um homem amargo, desencantado, fatigado, enjoado do seu século. 
Para Jorge de Lima, “o ambiente morno, a calmaria podre, o desinteresse pelo coletivo e pelo universal” que foram o “câncer” do tempo de Machado de Assis, não permitiram que a obra deste “homem excepcional” (uma expressão de José Veríssimo) fosse ainda maior. 
Por sua vez, João Ribeiro constatou em Machado de Assis uma insensibilidade “absoluta” pela dor humana, um egoísmo “sem limites”, uma “esquiva vivacidade” nas suas “inconstâncias de espírito”. Todos os heróis machadianos possuem uma “pequenez” de alma, temperada com “pequenas canalhices da desforra”.
Para o escritor José Lins do Rego, Machado foi um “escritor sem raízes” e jamais serviria de modelo se dele quiséssemos tirar um retrato do seu povo, mesmo que fosse da elite brasileira. Segundo Zé Lins, Machado foi um homem de imaginação, mas de uma imaginação aristocrática, sendo por isso, um homem à parte em nossas letras: “uma força viva e imaginativa, num país onde se procura descobrir imaginação na opulência verbal de José de Alencar”. 
O poeta carioca Ronald de Carvalho, ao contrário, considerava Machado um escritor sem transbordamentos de imaginação, sendo a sua riqueza “toda interior”, muito mais intensa que extensa, de um “colorido sóbrio e preciso”. Para a escritora Lúcia Miguel Pereira, a vida de Machado de Assis, toda processada sob o signo do espírito modesto, digno e desinteressado, completa a sua obra, fazendo do autor, além de um valor intelectual, um precioso valor moral. 
Alfredo Pujol, crítico literário, um dos primeiros a se dedicar ao estudo da obra de Machado de Assis, o chamou de: 
“alma recolhida e solitária, nutrida das suas tristezas íntimas, envolta em sombras da dúvida. Um poeta da vida interior, enclausurado no seu sonho, estranho à agitação que o rodeava.”

Há também aqueles (“homens derramados”) que lhe chamaram (ainda em vida) de “o chefe da literatura nacional” ou ainda de “clássico verdadeiro”, pela forma, pelo minucioso estudo da língua e pelo escrupuloso cuidado com que se apartava de tudo que lhe parecesse dissonância.
Nascido, há 181 anos, na cidade do Rio de Janeiro, de onde pouco se afastou por toda a vida, ali cresceu em condições precárias, como tantos e tantos brasileiros. Pobre, sem recursos, sem família, Machado de Assis foi um “self-made man”, formou-se por sua própria educação, com a mais vasta leitura, tudo pelo esforço próprio. Sua experiência de vida, certamente, o moldou. 
Não por acaso, o mesmo João Ribeiro (aqui, já citado), certa vez, ao concluir que “não há na nossa literatura, páginas mais profundamente imorais e perigosas que as de alguns contos de Machado de Assis”, o comparou, de forma “oblíqua e dissimulada”, ao poeta alemão Heinrich Heine (“o último dos românticos”). 
Assim, escreveu João Ribeiro: 
“Ludwig Boerne (escritor alemão) disse que Heine era como um ratinho que havia cavado galerias subterrâneas inumeráveis; acossado num ponto, ele escorregava por outro. Era impossível apanhá-lo. Só se a crítica fosse um gato, dizia Boerne. Mas, nesse caso, o sr. Heine é muito mais rato do que poderá ser gato a mais acelerada crítica”. Concluiria, então, Ribeiro: “Não sei que imagem se possa aplicar com mais adequada justeza a Machado de Assis, pelos sorvedouros que cava de subentendidos”.



*Escritor, jornalista e editor dos Clássicos Hiperliteratura
Edição: Rodrigo Durão Coelho e Eduardo Miranda
Brasil de Fato | Rio de Janeiro (RJ) 26 de Junho de 2020.



COMO VIVEM OS MORADORES DE UMA DAS MAIORES FAVELAS DE PALAFITAS DO BRASIL

Localizada no Pará, a Vila da Barca sofre com falta de água potável, esgoto sanitário e condições dignas de vida.

Catarina Barbosa    Brasil de Fato | Belém (PA) | 19 de Julho de 2020


Criança que mora na Vila da Barca, em Belém, no Pará, pegando a sua pipa no meio do lixo que fica abaixo da sua casa. - Catarina Barbosa/Brasil de Fato

 "Isolamento?". O questionamento vem em tom de negação e poderia até soar como negligência, mas é apenas a realidade dos mais de 7 mil moradores da comunidade da Vila da Barca, uma das maiores favelas de palafitas do Brasil, localizada em Belém, capital do estado do Pará. Palafita é um tipo de habitação sustentada por estacas às margens de um rio ou qual outra área alagadiça.

A vila fica próxima a um dos bairros mais ricos da capital paraense, que conta com apartamentos que atingem o valor de mais de R$ 1 milhão.

 

Na Vila da Barca, a população vive cotidianamente com o lixo / Catarina Barbosa/Brasil de Fato.

A comunidade sofre com o descaso das autoridades públicas. Cenas inconcebíveis como crianças andando em meio ao lixo, falta de água nas torneiras, esgoto sanitário a céu aberto e ausência de energia elétrica fazem parte da rotina das pessoas.

:: Sem água, 10% dos brasileiros terão dificuldades na fase mais crítica da pandemia ::

O Brasil de Fato esteve na Vila da Barca e foi recebido pela líder da Associação de Moradores, Inez Medeiros. Ela denuncia o abandono a que estão submetidos os moradores do local e que o problema da falta de moradia digna se intensificou com a pandemia.

"A falta de água, a inexistência do esgotamento sanitário, (...) muitas casas não têm água na torneira e muitas vezes os moradores tentam sanar isso e não conseguem. Nesse

 

período de isolamento social, ficou ainda mais acentuado esse problema, visto que muitos precisam, pelo menos, do mínimo para se manter", afirma. 

A Vila da Barca faz parte de um projeto da Prefeitura de Belém que visa acabar com as palafitas e construir um conjunto habitacional com casas de alvenaria no local. Porém, a obra está parada há cerca de 15 anos, segundo Medeiros. Ela afirma ainda que ao abandono se somam outras questões para a comunidade, como a concentração de dependentes químicos e pessoas em situação de rua.

Para além das disparidades sociais gritantes entre pessoas que moram tão próximo, o local onde foram construídos os prédios está em área de preservação permanente e terrenos da Marinha, por lei, inalienáveis.

:: Condições precárias de moradia dificultam isolamento vertical nas periferias ::

Em nota, a Secretaria Municipal de Habitação (Sehab) disse que as obras do projeto Vila da Barca estão em andamento. "Ele se divide em três etapas, onde já foram entregues 168 unidades habitacionais da Etapa I, 12 unidades da Etapa II e oito unidades da Etapa III, restando para serem executadas 78 unidades da Etapa II e 120 da Etapa III, que já possuem empresas contratadas e estão em andamento", afirma o órgão. 
 A equipe do 
Brasil de Fato
 visitou o local às 11h da última segunda-feira (13) e não constatou as obras em andamento.

 

A equipe do Brasil de Fato esteve no local na última segunda-feira (13) e não constatou trabalhadores na obra / Catarina Barbosa/Brasil de Fato

Saneamento e covid-19

Na última quarta-feira (15), o presidente Jair Bolsonaro sancionou o novo marco legal do saneamento básico. A lei tem por objetivo ampliar a presença do setor privado na área. Atualmente, o saneamento é prestado, majoritariamente, por empresas públicas estaduais.

Apesar de parecer uma boa ideia, o Pará tem como exemplo a privatização da energia elétrica. A concessionária foi vendida em 1988 e, desde então, o aumento na conta paga pelo cidadão paraense chega a 500%. 

Segundo dados do último censo divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Pará tem mais de 8 milhões de habitantes.

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD), por sua vez, também realizada pelo IBGE, aponta que apenas 27,4% das casas da região Norte do Brasil possuem acesso à rede geral de esgotos. No Pará, esse número chega somente a 4,7% dos domicílios com esgotamento sanitário do tipo rede coletora de esgoto, que trata o material coletado.

 


Se hábitos básicos de higiene, como lavar as mãos com água limpa, contribuem para evitar o contágio, uma população privada de água de qualidade consequentemente estaria à mercê da doença.

Rosana dos Santos, de 24 anos, nasceu na Vila da Barca e vive na pele essa realidade. Ela mora em uma pequena casa de quatro cômodos onde mora com a mãe, o pai, três filhos, um sobrinho e mais um primo. 

Apesar da gravidade da pandemia, os problemas na comunidade são tantos que parece não haver espaço para se preocupar com um vírus letal. Questionada sobre o isolamento social ou as medidas de proteção, ela foi categórica em responder que não houve prevenção. 

Sua mãe, que é empregada doméstica, por sua vez, foi infectada pelo novo coronavírus, porque apesar de ser do grupo de risco, não foi liberada pela sua empregadora, que mora em Ananindeua, um município da Região Metropolitana de Belém, distante cerca de uma hora e meia de ônibus de onde ela mora.

"Ela passou bastante tempo 'arriada' e com muita dor. Às vezes ela nem encostava perto dos meninos. Eles ficavam dentro do quarto, mas, mesmo assim, ela ia trabalhar", disse. 

Curso popular formará, gratuitamente, agentes de saúde na prevenção do coronavírus ::

                     Comunidade da Vila da Barca em época de maré alta. / Lucas Weber/Arquivo

O Pará é atualmente um dos estados brasileiros com mais infectados e mortos pela covid-19. Segundo dados do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass), são quase 137 mil casos confirmados e mais de 5,4 mil, contabilizados até este domingo (19). 

Proteção que vem do rio

Para muitos povos, o rio é sagrado, pois representa fartura e abundância. Os moradores da Baía do Guajará, apesar de viveram com uma série de privações, também são gratos ao rio, porque na falta de água limpa é a baía que eles usam.

A presidenta da Associação, Inez Medeiros, detalha a contradição de que quanto mais perto do rio, maiores os problemas de abastecimento de água para os moradores.

"Engraçado, porque tem uma controvérsia aí, as pessoas que estão mais próximas do rio aqui na Vila da Barca são as que mais sofrem com a falta de água potável e, com isso, eles acabam tendo que buscar uma forma de conseguir essa água e como vai ser? Através do rio. E eles acabam tendo contato com a baía, que é contaminada, cheia de dejetos, porque como as casas das palafitas não têm esgotamento sanitário, então, todo os dejetos despejados pelas residências entram em contato com esse rio e, com isso, acumulam sujeira, coliformes fecais, todos esses problemas que até de maneira leiga conseguimos identificar que são sérios", diz ela.

:: A gente só vive porque a floresta está em pé, diz líder extrativista da Amazônia :: 

Moradora da comunidade há 10 anos, Tatiana Beltrão, de 29 anos, tem quatro filhos. Ela conta que as gestões municipais mudam, mas os problemas permanecem e a água é um dos mais difíceis de administrar.

Apesar de ter uma linda vista da Baía do Guajará e bomba d'água em casa, Tatiana sofre com o abastecimento de água potável e reconhece que nem todos têm condições de comprar uma bomba e que a solução acaba sendo puxar água de um cano com balde.

Desempregada, ela cuida da casa enquanto o marido, que é soldador, recebe como salário o necessário para que eles possam sobreviver.

Tatiana recebeu a equipe da reportagem do Brasil de Fato em sua casa de madeira e foi se desculpando pelo excesso de louça na pia. Isso porque, no dia anterior, a água não havia chegado na torneira. Quando isso ocorre, o jeito é usar a água da maré. Durante a pandemia essa foi, quase sempre, a solução encontrada. "A gente chega, lava a mão, mas guarda também a água da maré e aproveita para nos mantemos asseados", resume. 

Inez Medeiros, presidenta da Associação de Moradores da Vila da Barca, às margens da baia do Guajará. Ao fundo, casas de palafita / Catarina Barbosa/Brasil de Fato

Questionada se a água do rio faz mal para a sua família, ela diz que todos já se acostumaram. “Eles tomam banho constantemente com a água do rio, então, acabaram se adaptando. Eu falo que são anticorpos. Eles têm bastante anticorpos da água”, diz ela. 

Angélica Lopes, 44 anos, outra moradora da comunidade, também utiliza a água do rio para realizar as atividades do dia a dia.

Próximo à casa dela, há um cano por onde ela puxa a água através de um balde. Na entrada da casa, em uma espécie de pátio, uma máquina de lavar que não funciona mais e diversos baldes servem de recipiente para armazenar água limpa. 

Em dia de recorde mundial de contaminados, Brasil registra 28.796 novos casos

Angélica explica que há toda uma mecânica para poder usar a água da maré: é preciso esperar o rio encher para somente assim poder puxar a água.

"A dificuldade é essa, não dá água na torneira aqui, só se for com bomba, e quando não tem água e a maré está enchendo, a gente espera a maré encher para a gente poder pegar água para fazer as coisas, menos para lavar roupa e lavar louça”, explica.

O cuidado de esperar a maré encher ou vazar é necessário, porque quando a maré sobe, ela traz a água do rio, mas quando ela desce, ela leva todo tipo de lixo e dejetos humanos inviabilizando o seu uso pelos moradores.

Apesar de tanta dificuldade e privações de direitos, Angélica admite que não pensa em trocar seu lar na beira do rio. Ao lado dos seus recipientes cheios de água, usada para lavar louça, roupa e cozinhar, ela afirma que gostaria, apenas, que as autoridades reconhecessem que os moradores da Vila da Barca têm tanto direito quando quem mora em um apartamento de R$ 1 milhão.

 

Edição: Mauro Ramos e Vivian Fernandes

Brasil de Fato | Belém (PA) | 19 de Julho de 2020

Fonte: https://www.brasildefato.com.br/

 

 

 

 


quarta-feira, 15 de julho de 2020

AS REVOLTAS POPULARES DA PÁTRIA AMADA BRASIL

FRAGMENTOS DO CORDEL: AS REVOLTAS POPULARES DA PÁTRIA AMADA BRASIL.
Luiz Cláudio & Rodrigues Neto.

Nestes versos trataremos
De mostrar realidades,
Com talentos, mostraremos
Tudo que tem falsidades,
Na escrita provaremos
A pureza das verdades.



Tenho sempre um argumento,
Defendendo a liberdade,
Há nele um conhecimento
Sobre justiça e verdade,
E com meu sentimento,
Vou falar com claridade!