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sábado, 6 de outubro de 2012

ESQUECEMOS QUE SOMOS UM PAÍS MULTICULTURAL E PLURIÉTNICO?


 
Débora Diniz
É inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e as suas liturgias” (Constituição brasileira 1988:15, art.5º, VII). Iniciar esta reflexão com uma citação da Constituição Cidadã é uma forma de chamar a atenção do leitor a respeito de um tema que, comumente ocupa um lugar de destaque na vida dos seres humanos: a religião.

Essa reflexão que convido você leitor a fazer sobre o fenômeno religião, ele transcende a perspectiva externa de uma fé especifica. No Brasil, a questão religiosa aflora em todos os rincões. Dito isto, conduzirei nosso enfoque para um espaço, onde percebemos que esse fenômeno é mostrado na maioria das vezes, é por que não dizer ensinado de forma proselitista: a escola. 

Ao nosso entender trabalhar o fenômeno religião em sala de aula, se faz necessário levar em conta o multiculturalismo e o plurietnicismo, de forma a contemplar as crenças e valores religiosos de todos os povos, sejam eles africanos, indígenas, asiáticos, europeus, etc. 

Não interessa a etnia. Pois, acreditamos que, para viver democraticamente em uma sociedade plural e de uma variedade étnica grandiosa como o Brasil é preciso respeitar e valorizar essas manifestações culturais e religiosas de forma equitativa. 

E deste modo, apagar essa concepção nociva do “colonizador”, ou essas imagens sob moldes genéricos e esteriotipantes que temos, por exemplo, quando nos referimos às culturas e práticas religiosas dos índios e dos negros, como selvagem; imoral e maléfica. Inferiorizando-as e maculando-as de forma gritante. Enquanto a cultura e a religião impostas pelo branco “colonizador” são representadas em postos mais altos.  

Contudo, essa nossa inquietação a respeito de como este fenômeno religião é evidenciado nas escolas brasileiras se torna cada vez mais esclarecedor através desta reportagem seguida de uma entrevista da jornalista Solange Azevedo a antropóloga Débora Diniz que é enfática em fazer a seguinte afirmação: “a liberdade religiosa está ameaçada no país”. Publicada na Revista Isto é na edição nº2164 de abril de 2011. Eis abaixo a transcrição da reportagem e da entrevista:  
       
Antropóloga afirma que o Estado está sendo questionado na Justiça por tentar privilegiar o ensino católico nas escolas públicas e que livros didáticos associam os ateus aos nazistas.

O trabalho da antropóloga e documentarista carioca Débora Diniz tem si­do amplamente reconhecido mundo afora. Aos 41 anos, ela já recebeu 78 prêmios por sua atua­ção como pesquisadora e cineasta. Professora da Universidade de Brasília, Débora é autora de oito livros. O último deles – “Laicidade e En­sino Religioso no Brasil” – trata de uma discussão que está emergindo no País e deverá ser motivo de debates acalorados no Supremo Tribunal Federal.

“Além de a lei do Rio de Janeiro sobre o ensino religioso nas escolas públicas estar sendo contestada no Supremo, há uma ação da Procuradoria-Geral da República contra a concordata Brasil-Vaticano, assinada pelo presidente Lula em 2008”, lembra Débora. “Um artigo da concordata prevê que o ensino religioso no País seja, necessariamente, católico e confessional. Isso é inconstitucional.” (Reportagem: Solange Azevedo).

Istoé - O ensino religioso nas escolas públicas, num Estado laico como o Brasil, é legítimo? 

Débora Diniz - Sim e não. Sim porque está previsto pela Constituição. E não quando se trata da coerência com o pacto político. Chamo de coerência a harmonia com os outros princípios constitucionais: da liberdade e do pluralismo religiosos e da separação entre o Estado e as igrejas. Falsamente, se pressupõe que religião seria um conteúdo necessário para a formação da cidadania. 

Istoé - O pluralismo religioso é respeitado nas escolas públicas? 

Débora Diniz - Não. A Lei de Diretrizes e Bases delega aos Estados o poder sobre a definição dos conteúdos e quem são os professores habilitados. Isso não acontece com nenhuma outra matriz disciplinar no País. A LDB diz que o ensino religioso não pode ser proselitista. Apesar disso, legislações de vários Estados – como a do Rio de Janeiro – afirmam que tem de ser confessional. Determinam que seja católico, evangélico. 

Istoé - As escolas viraram igrejas? 

Débora Diniz - As aulas de ensino religioso, obrigatórias nas escolas públicas, se transformaram num espaço permeável ao proselitismo. Não é possível a oferta do ensino religioso confessional sem ser proselitista. Se formos para o sentido dicionarizado da palavra proselitismo, é professar um ato de fé. É a catequização. O proselitismo é um direito das reli­giões. Mas isso pode ocorrer na escola pública? A LDB diz que não.

Istoé - É possível haver ensino religioso sem ser proselitista? 

Débora Diniz - É. A resposta de São Paulo foi defini-lo como a história, a filosofia e a sociologia das religiões. 

Istoé - São Paulo seria o melhor exemplo de ensino religioso no País? 

Débora Diniz – No que diz respeito ao decreto estadual, segundo o qual o ensino não deve ser confessional, sim. Mas se é o melhor exemplo na sala de aula, não temos pesquisas no Brasil para afirmar isso. A LDB diz que a matrícula é facultativa. Então, também devemos perguntar: o que a criança faz quando não está na aula de religião?

Istoé - O ensino religioso, da forma como está configurado, é uma ameaça à liberdade religiosa? 

Débora Diniz - É. Quanto mais confessional for à regulamentação dos Estados, quanto mais os concursos públicos forem como o do Rio – em que o indivíduo tem de apresentar um atestado da comunidade religiosa a que pertence e, caso mude de religião, perde o concurso –, maior é a ameaça. A liberdade religiosa está ameaçada no País e a justiça religiosa também.

Istoé - Há uma tentativa de privilegiar uma ou outra religião? 

Débora Diniz - Quase todos os Estados se apropriam do que aconteceu no Rio, nominando as religiões dos professores. No Ceará, por exemplo, o professor tem de ter formação em escolas teológicas. Mas religiões afro-brasileiras não têm a composição de uma teologia formal. Essa exigência privilegia os católicos e os protestantes. 

Istoé - Por que o MEC não define o conteúdo do ensino religioso? 

Débora Diniz - Há uma falsa compreensão de que o fenômeno religioso é um saber para iniciados, e não para especialistas laicos. Também há um equívoco sobre o que define o pacto político num Estado laico. O fenômeno religioso não é anterior ao fato político. Religião não pode ter um status que não se subordine ao acordo constitucional e legislativo. Isso é verdade em algumas coisas, tanto que o discurso do ódio não é autorizado. O debate sobre a criminalização da homofobia causa tanto incômodo às comunidades religiosas porque resultará em restrição de liberdade de expressão. Não se poderá dizer que ser gay é grave perversão, como algumas fazem atualmente.

Istoé - Os livros didáticos dizem... 

Débora Diniz - Dizem porque há essa lacuna de regulação e de fiscalização. Há uma subordinação do nosso pacto político ao fato religioso. O que é um equívoco. Também há uma falsa presunção de que o saber religioso não possa ser revisado. O MEC tem um painel em que todas as controvérsias científicas são avaliadas por uma equipe que diz o que pode e o que não pode entrar nos livros didáticos. A despeito de pequenas comunidades no campo da biologia dizerem que criacionismo é uma teoria legítima sobre a origem do mundo, o filtro do MEC diz que criacionismo não é ciência. Por que, então, o MEC não define o que pode entrar nos livros de ensino religioso e os parâmetros curriculares? 

Istoé - O que os livros didáticos de religião pregam? 

Débora Diniz - Avaliamos 25 livros didáticos de editoras religiosas e das que têm os maiores números de obras aprovadas pelo MEC para outras disciplinas. Expressões e valores cristãos estão presentes em 65% deles. Expressões da diversidade cultural e religiosa brasileira, como religiões indígenas ou afro-brasileiras, não alcançam 5%. Muitas tratam questões como a homofobia e a discriminação contra crianças deficientes de uma maneira que, se fossem submetidas ao crivo do MEC, seriam reprovadas. A retórica sobre os deficientes é a pior possível. A representação simbólica é de quem é curado, alguém que é objeto da piedade, que deixa de ser leproso e de ser cego. É a do cadeirante dizendo obrigado, num lugar de subalternidade. 

Istoé - A submissão ao sagrado é estimulada? 

Débora Diniz - É uma submissão ao sagrado, à confessionalidade. Mas a confessionalidade não se confunde com o sagrado. O sentido do sagrado pode ser explicado. No caso do “Alcorão”, é possível explicar que a escrita tem relação com a história do islamismo. Não precisamos de livros que violem o sagrado, que digam que Maria não era virgem. Mas eles não precisam se submeter à confessionalidade, dizer que há só uma verdade. 

Istoé - Há um estímulo ao preconceito e à intolerância nos livros?

Débora Diniz - Sem dúvida. Há a expressão da intolerância à diversidade – das pessoas com deficiência, da diversidade sexual e religiosa, das minorias étnicas. Há, também, uma  certa ironia com as religiões neopentecostais.

Istoé - A ideia da supremacia moral dos que têm religião é defendida? 

Débora Diniz - É. Há equívocos históricos e filosóficos, como a associação de ­Nie­tz­s­che ao nazismo. As pessoas sem Deus são representadas como uma ameaça à própria ideia do humanismo. É muito grave a representação dos ateus. Isso pode gerar desconforto entre as crianças cujas famílias não professem nenhuma religião. Já que, nos livros, elas estão representadas como aquelas que mataram Deus e associadas simbolicamente a coisas terríveis, como o nazismo.

Istoé - As aulas facultativas podem se tornar uma armadilha? 

Débora Diniz - Sem dúvida. A criança terá de explicar suas crenças, o que deveria ser matéria de ética privada. Pior: ao sair da aula com um livro como esse, as crianças talvez tenham de explicar por que não têm Deus. 

Istoé - Não há reflexões históricas sobre o significado das religiões? 

Débora Diniz - Nenhuma. Há uma enorme dificuldade de nominar as comunidades indígenas como possível religião. Elas possuem tradições e práticas religiosas ou magia. No caso das afro-brasileiras, também se fala em tradição. 

Istoé - O que levou o Estado a proteger o ensino religioso na Constituição? 

Débora Diniz - Foi uma concessão a comunidades religiosas numa disputa sobre o lugar de Deus e da religiosidade na Constituição. A religião foi mantida no que caracterizaria a vida boa e a formação da cidadania. Isso é um equívoco. A religião pode ser protegida pelo Estado, mas não no espaço de promoção da cidadania que é a escola. 

Istoé - O ensino religioso está ganhando ou perdendo espaço no mundo?

Débora Diniz - Essa é uma controvérsia permanente. Nos Estados Unidos, um país bastante religioso, não está na escola pública. Na França, o país mais laico do mundo, também não. Exceto na região da Alsácia-Mosele. Na Bélgica e no Reino Unido está. Esses países hoje enfrentam com muita delicadeza a islamização de suas sociedades. Na Alemanha, grupos islâmicos já começaram a exigir o ensino de sua religião nas escolas públicas. 

Istoé - Mas na França também há o outro lado, de proibirem vestimentas... 

Débora Diniz - Esse é o paradoxo que a França enfrenta neste momento, sobre como respeitar o modelo da neutralidade. A lei do país proíbe símbolos religiosos ostensivos nas escolas públicas – cruz grande, solidéu, véu. O que o outro lado vai dizer? Que isso viola um princípio fundamental, que é a expressão das crenças individuais estar no próprio corpo.

Istoé - Quais são os desafios do ensino religioso no Brasil? 

Débora Diniz - São gigantescos e podem ser divididos em três esferas. Uma é a esfera legal. O ensino religioso está sob contestação nos foros formais do Estado: no Supremo, no MEC e no Ministério Público Federal. Além de a lei do Rio de Janeiro estar sendo contestada no Supremo, há uma ação da Procuradoria-Geral da República contra a concordata Brasil-Vaticano, assinada pelo presidente Lula em 2008. 

Istoé - E do que trata esta ação?

Débora Diniz - Um artigo da concordata prevê que o ensino religioso na escola pública seja, necessariamente, católico e confessional. Isso é inconstitucional. Estamos falando da estrutura da democracia. Segundo o ministro Celso de Mello, em toda a história do Supremo, só tínhamos tido uma ação que tocava na questão da laicidade do Estado. Isso foi nos anos 40. Agora, temos pelo menos duas. A segunda esfera é como o ensino religioso pode ou não pode ser implementado. O MEC precisa definir quem serão os professores, como serão habilitados e quais conteúdos serão ensinados. A terceira esfera é a sala de aula, a garantia de que vai ser um ensino facultativo e de que o proselitismo religioso será proibido. 

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